"Não quero ser um intelectual... os intelectuais são aqueles que divorciam a cabeça do corpo..."
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quarta-feira, 8 de junho de 2011
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Filósofo pela intenção, estóico por ofício, cosmopolita por excelência!
Lendo um livro, como fonte de pesquisa para um trabalho, me deparo com um dos maiores prazeres de se estudar filosofia: um pensamento genial e atemporal. Como diria um admirado filósofo contemporâneo, (que prefere ser chamado de músico), Prof. Dilmar Miranda, é quase "um gozo estético".
Trata-se do livro "O Ofício do Filósofo Estóico: O Duplo Registro do Discurso da Estoá", da Rachel Gazola (PUC-SP). Texto raro no meio acadêmico, principalmente em se tratando da área de Filosofia antiga. Claro, conciso, leve, didático e ao mesmo tempo gostoso de ler.
Mas a pérola a qual me referia (não menosprezando o texto da autora), diz respeito a algumas frases de Zenão de Cício (336 a.C. – 264 a. C.), que a autora cita em seu livro, que dizem:
"... devemos considerar todos os homens como 'démotas' e cidadãos, e que o modo de vida seja uno e a ordem una, como um rebanho que numa pastagem se nutre em conjunto, segundo uma mesma lei..."
"... é inútil a cultura geral... os tribunais, os ginásios, os santuários são inúteis... o sistema de educação é inútil"
Pérola de pensamento. Nada mais atual! Nada mais lógico, principalmente se analisarmos sob o ponto de vista da contextualização do autor e da conjuntura na qual ele vivia.
Zenão era estrangeiro em Atenas. Um bárbaro. Chega ainda jovem à cidade grega, a polis por excelência, para estudar. Já naquela ocasião, por volta de 326 a.C, Atenas, apesar de seu rico aparato cultural e desenvolvimento comercial, passava por uma visível decadência ético-política. Além disso, ainda persistia a idéia de que os gregos eram superiores aos outros povos. Ao consultar o Oráculo sobre o que deveria se ocupar em seus estudos recebe o indicativo: "torna-te da cor dos mortos". Zenão, segundo Diógenes Laércio, interpreta como tendo a missão de conhecer a cultura grega, desde Homero.
Mais tarde funda a sua escola, que se reunia na Stoa Poikile, razão pela qual seus discípulos ficaram conhecidos como estóicos. Tratava-se de um pórtico abandonado, que guardava nas paredes pinturas matizadas, onde na época da "Tirania dos Trinta", haviam morrido mais de 1.400 atenienses (Escolhera o local por causa do oráculo? Não se sabe certamente).
Considerado pelos historiadores como tendo sido um homem de bem, dígno, Zenão e sua doutrina, também ficaram bastante conhecidos por não se importarem com o civismo grego. Ele poderia ter reivindicado a cidadania ateniense, mas ao contrário, era bastante crítico à cultura centrada em tal posicionamento. Para ele, antes de ser cidadão de qualquer lugar, seria necessário perceber-se como parte do cosmo, de maneira a aprofundar a individualidade universal, que não vê na individualidade a mesma conotação moderna de separação do individuo dos demais e do mundo, mas enfatiza a singularidade de cada um, ao mesmo tempo em que afirma que "ser homem é anterior a ser grego, fenício ou espartano e que o essencial é ser cosmopolita, cidadão do mundo, o que significa desconsiderar os limites geopolíticos traçados pela historicidade".
O próprio Zenão fez do estoicismo um adjetivo. E mais tarde, outros segmentos da escola fundada por ele, mesmo inovando e desconstruindo alguns traços da sua doutrina, ainda um tanto influenciada pelos cínicos, demonstraram que a essência desse pensamento permanecia: é preciso saltar da Polis à Cosmopolis. O cosmopolitismo, nessas bases, vieram a influenciar, mais tardes, grandes pensadores e os variados debates na área de Direitos Humanos.
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Segue abaixo o resumo do meu trabalho para apreciação:
O COSMOPOLITISMO ESTÓICO E OS DIREITOS HUMANOS
O fundador do estoicismo foi Zenão de Cicio (336 a.C. – 264 a. C.), que nasceu em Cítio, na ilha de Chipre, mudando-se para Atenas por volta de 312 ou 311 a. C.. Seus discípulos, formadores da escola estóica, ficaram conhecidos como estóicos por causa do lugar onde se reuniam, Stoa Poikile. Segundo a escola fundada por Zenão, para se alcançar a felicidade, que é o próprio sentido da vida, é necessário ser cosmopolita, ou seja, cidadão do mundo, o que significa ultrapassar os limites geopolíticos da existência. O conceito de cosmopolitismo nascente com os estóicos surge da necessidade de troca de experiências entre os povos, onde o individuo pertencente a um povo deveria sentir- se em casa em qualquer parte do mundo, disposto a aprender e vivenciar novas culturas, além de transmitir aspectos da cultura do seu lugar de origem, sem sofrer represaria por ser estrangeiro. O presente trabalho tem por objetivo mostrar as influências dessa escola de pensamento tão importante para a História da Filosofia nos atuais debates sobre Direitos Humanos no âmbito das relações internacionais. Um aspecto importante que será abordado neste trabalho é a atual situação dos imigrantes e a restrição ou limitação da circulação das pessoas pelo mundo.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
A questão é sermos razoáveis? (Alteridade e Justiça Política)
O texto abaixo está em processo de construção. Está aqui temporariamente para apreciação e aberto à sugestões e/ou correções.
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A questão é sermos razoáveis?
(Alteridade e Justiça Política)
No momento da história da humanidade pelo qual estamos passando muitas questões estão sendo revistas através de importantes fatos, como é o caso dos últimos acontecimentos no Egito e na Tunísia. No Egito, depois de 18 dias de manifestações, onde as pessoas foram às ruas dizer que queriam o fim da ditadura de Mubarak, podemos assistir a uma amostra do que é o poder popular quando o Estado não cumpre o papel de “gerente justo” na sociedade.
E o que, de fato, vem a ser esse poder popular nos dias de hoje? Sabemos, e podemos rever com os recentes acontecimentos, que ditaduras não resistem à insatisfação do povo e que democracias são processos em construção contínua. Sabemos também que não é de uma hora para a outra que se pode mudar a maneira de uma determinada sociedade se organizar.
Quando se fala de “poder” é preciso ter cuidado com o que a palavra pode significar. Aqui, para entender melhor, consideramos o seguinte raciocínio: Poder, normalmente, lembra disputa; disputa lembra conflito; e conflito lembra crise. Por sua vez, a crise lembra e, geralmente, refere-se a mudanças. É a partir dessa reflexão que podemos tentar responder sobre o que vem a ser o poder popular na sociedade atual.
Entendemos por popular tudo aquilo que for referente ao povo. E por povo o conjunto de pessoas que integram uma sociedade. Povo também pressupõe diversidade. Ou seja, popular é a síntese da diversidade que existe em um determinado povo. É aquilo que caracteriza esse povo na sua essência. Portanto o poder popular é quando um povo se apropria do conhecimento das necessidades que são comum à todos os seus membros e decidem que devem unir-se para lutar por esse ponto ou esses pontos em comum.
O poder popular, basicamente, diz respeito à consciência que as pessoas tem, ou possam vir a ter, no que diz respeito ás suas necessidades traduzidas em direitos e deveres. Em uma sociedade democrática justa essas necessidades devem prevalecer sobre qualquer outra prioridade governamental.
A descrição de tal realidade pode despertar certa desconfiança utópica, pois parece, e se formos analisar os casos de cada país no mundo inteiro perceberemos que, de fato, é irreal, na medida em que se trata de um processo e não um recorte concreto do um modelo ideal de sociedade. Tal ponto de vista tem por objetivo dar sentido ao modo como a humanidade vem se organizando politicamente ao longo da história.
Desde os antigos gregos e romanos, podemos perceber a necessidade de organização política na sociedade. Seja na Polis grega ou no Império romano, a organização social é determinante para a vida das pessoas que compõe aquele povo. Porém, também podemos perceber, que se a maneira como essa sociedade é conduzida pelos governos não condiz com as demandas da população, perde-se a sua base e fada-se ao total fracasso ou a mais radical mudança.
A questão primeira, então, é governar com senso de justiça, ao ponto que as ações do estado confundam-se com as necessidades reais de seu povo. E a segunda é que agindo de tal maneira, tal senso de justiça possa refletir nas relações entre estados.
Tais pontos podem ser resumidos como ações de um senso de justiça equitativo, que garantindo as necessidades, dentre elas a autonomia dos cidadãos, garante também um movimento de pacificação das relações internacionais.
A conseqüência real de tais movimentos podem resultar em relações internacionais maduras que ultrapassem as intervenções pontuais em momentos de “crise” de determinados países.
Para tanto seria necessário fundar uma forma de governar através de um sentido cosmopolita. Tal sentido teria por base instituições internacionais capazes de fiscalizar e, em alguns casos, executar medidas de respeito à autonomia de cada povo e à sua cultura concomitantemente com o respeito mútuo aos direitos humanos.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
"assim como escravos eram braços"
"Que ela não possa sair de sua casa, ou, em outras palavras, desistir da vida doméstica e assumir a vida política e pública, só se justificava pelo fato de que ela tivesse uma função em consonância com a mulher-mãe, a mulher sob a função de útero, assim como escravos eram braços."
(Tiburi, Márcia. In Mulheres, Filosofia ou Coisas do Gênero)
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Perplexa eu. E o mundo?
Estava tentando instalar os infinitos programas que apaguei do meu computador ao reinstalar o sistema operacional, e enquanto baixava as informações necessárias dei um "rolé" pela internet, lendo e-mails e notícias, quando acabei me deparando virtualmente com o (nosso?) mundo real.
Eis a notícia que me despertou a curiosidade: Pare o "estupro corretivo". Primeiro fiquei curiosa para saber do que se tratava, depois fiquei perplexa quando li a notícia. Trata-se de uma campanha do Avaaz.org, contra a prática do estupro praticado contra mulheres lésbicas na Africa do Sul.
É complicado, para o meu discernimento, perceber que a dimensão do "nosso mundo" é tão limitada nas diferentes culturas e regiões. Pensar que uma questão como a orientação sexual de uma mulher será "resolvida" com um ato de violência sexual é no mínimo desdenhar a inteligência da natureza, que "nos fez" capazes de diversidade e racionalidade... liberdade e desejo.
O que fazer diante de algo dessa dimensão? O que pensar? O que sentir? Não sei. Acho que o nosso mundo tem feridas abertas que nem a cultura, a informação ou a simples compreensão do outro como extensão da individualidade, que independente de mim me completa enquanto espécie, são capazes de me responder.
Segue o link da campanha. Eu assino...
terça-feira, 30 de novembro de 2010
As Virtudes Cosmopolíticas e a Emergência do Cidadão Mundial*
O presente trabalho tem por objetivo abordar a questão das virtudes cosmopolíticas, presente no capítulo 12, da obra "Democracia no Mundo de Hoje", de Otfield Höffe, partindo do principio de que a possibilidade de um “Estado Mundial” razoável e justo só é possível de se pensar a partir da afirmação e vivência dessas virtudes. Há muito tempo, desde a antiguidade clássica, já se tinha conhecimento de uma teoria das virtudes cosmopolíticas. Também podemos encontrar apontamentos sobre essas virtudes na filosofia política de Kant. Porém, para Höffe, tanto as teorias da antiguidade clássica, como os apontamentos kantianos mostram uma abordagem insuficiente dessa questão. Na antiguidade clássica porque, por questões históricas, elas foram desenvolvidas como contraponto a uma teoria democrática meramente institucional e apenas no âmbito do Estado Nacional. Já Kant, segundo Höffe, mais especificamente em seu tratado À Paz Perpétua, somente as abordou de forma “incidental e generalizada”. A conclusão de Höffe acerca das virtudes cosmopolíticas é de que elas devem corresponder às demandas da sociedade globalizada. Não podem limitar-se aos Estados Nacionais e também não podem servir apenas como idéias reguladoras. O autor aponta uma definição básica das quatro principais virtudes cosmopolíticas como sendo 1. Senso jurídico mundial; 2. Senso de justiça mundial; 3. Senso cívico mundial e 4. Senso comunitário mundial. Essas quatro virtudes não se esgotam em si mesmas e abrem um leque de possibilidades para se pensar uma convivência harmoniosa entre os Estados em uma possível República Mundial, e podem ter como “produto” da sua ação eficiente o surgimento do “cidadão mundial”, que supera a idéia tradicional de “cidadão do mundo”, que conhece diversos países e culturas, mas não como parte da realidade que visita. O cidadão mundial é aquele que sendo fruto da concretização, ao menos em grande parte, das virtudes cosmopolíticas, sente-se parte dos diversos lugares e culturas, de maneira que por onde passa leva e traz conhecimentos e impressões, e é capaz de promover uma cultura mundial, sem barreiras lingüísticas, étnicas, geográficas e etc.
Palavras-chave: VIRTUDE. COSMOPOLITISMO. CIDADÃO DO MUNDO. ESTADO MUNDIAL.
* Resumo de Comunicação Oral para apresentar na X Semana de Filosofia da UECE, em dezembro de 2010.
sábado, 9 de outubro de 2010
Os Miseráveis*
*Poesia de Sergio Vaz
Os miseráveis
Vitor nasceu no jardim das margaridas
Erva-daninha nunca teve primavera
Cresceu sem pai sem mãe sem norte sem seta
Pés no chão, nunca teve bicicleta
Já Hugo não nasceu, estreou!
Pele branquinha, nunca teve invernotinha pai, mãe, caderno e fada-madrinha.
Vitor virou ladrão! Hugo salafrário!
Um roubava por pão.
O outro para reforçar o salário.
Um usava capuz o outro gravata,
Um roubava na luz o outro em noite de serenata
Um vivia de cativeiro
O outro de negócio
Um não tinha amigo, parceiro
O outro sócio
Retrato falado
Vitor tinha cara na notícia
Enquanto Hugo fazia pose pra revista
O da pólvora apodrece impenitente
O da caneta enriquece impunemente
A um só resta virar crente
O outro é candidato a presidente!
segunda-feira, 26 de julho de 2010
O Insustentável Preconceito do Ser
Segunda-feira de manhã é um bom momento para ver os milhões de e-mails das listas de contatos. E vez por outra, dentre muitas inutilidades e questões mais práticas de cada lista de e-mails, chega um texto interessante que me faz parar para ler e ter um bom motivo para ao menos abrir a maioria desses incansáveis e-mails que chegam sempre.
O texto abaixo é de uma conhecida jornalista, a Rosana Jatobá, e fala sobre a questão do preconceito multifacetado e que está no cotidiano da sociedade brasileira. Posto ele aqui porque recentemente pude ver o quanto o preconceito ainda é algo presente no nosso cotidiano.
Semana passada recebi um e-mail que falava sobre um manifesto sob o título de "Manifesto São Paulo para os Paulistas". Dei uma olhadinha no blog deles e o que vi: tamanha precipitação. Pensei que era alguma piada ou sei lá... uma brincadeira de mau gosto. Afinal, tenho alguns amigos e parentes em São Paulo, paulistas e nordestinos, e nunca imaginei que esse tipo de iniciativa ganhasse o corpo que ganhou.
Sem mais, vamos ao texto do qual falei. Esse tá merecendo mais a nossa atenção e respaldo.
O Insustentável Preconceito do Ser
Por Rosana Jatobá*
Era o admirável mundo novo! Recém-chegada de Salvador, vinha a convite de uma emissora de TV, para a qual já trabalhava como repórter. Solícitos, os colegas da redação paulistana se empenhavam em promover e indicar os melhores programas de lazer e cultura, onde eu abastecia a alma de prazer e o intelecto de novos conhecimentos.
Era o admirável mundo civilizado! Mentes abertas com alto nível de educação formal. No entanto, logo percebi o ruído no discurso:
- Recomendo um passeio pelo nosso "Central Park", disse um repórter. Mas evite ir ao Ibirapuera nos domingos, porque é uma baianada só!
-Então estarei em casa, repliquei ironicamente.
-Ai, desculpa, não quis te ofender. É força de expressão. Tô falando de um tipo de gente.
-A gente que ajudou a construir as ruas e pontes, e a levantar os prédios da capital paulista?
-Sim, quer dizer, não! Me refiro às pessoas mal-educadas, que falam alto e fazem "farofa" no parque.
-Desculpe, mas outro dia vi um paulistano que, silenciosamente, abriu a janela do carro e atirou uma caixa de sapatos.
-Não me leve a mal, não tenho preconceitos contra os baianos. Aliás, adoro a sua terra, seu jeito de falar....
De fato, percebo que não existe a intenção de magoar. São palavras ou expressões que , de tão arraigadas, passam despercebidas, mas carregam o flagelo do preconceito. Preconceito velado, o que é pior, porque não mostra a cara, não se assume como tal. Difícil combater um inimigo disfarçado.
Descobri que no Rio de Janeiro, a pecha recai sobre os "Paraíba", que, aliás, podem ser qualquer nordestino. Com ou sem a "Cabeça chata", outra denominação usada no Sudeste para quem nasce no Nordeste.
Na Bahia, a herança escravocrata até hoje reproduz gestos e palavras que segregam. Já testemunhei pessoas esfregando o dedo indicador no braço, para se referir a um negro, como se a cor do sujeito explicasse uma atitude censurável.
Numa das conversas que tive com a jornalista Miriam Leitão, ela comentava:
-O Brasil gosta de se imaginar como uma democracia racial, mas isso é uma ilusão. Nós temos uma marcha de carnaval, feita há 40 anos, cantada até hoje. E ela é terrível. Os brancos nunca pensam no que estão cantando. A letra diz o seguinte:
"O teu cabelo não nega, mulata
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega, mulata
Mulata, quero o teu amor".
"É ofensivo", diz Miriam. Como a cor de alguém poderia contaminar, como se fosse doença? E as pessoas nunca percebem.
A expressão "pé na cozinha", para designar a ascendência africana, é a mais comum de todas, e também dita sem o menor constragimento. É o retorno à mentalidade escravocrata, reproduzindo as mazelas da senzala.
O cronista Rubem Alves publicou esta semana na Folha de São Paulo um artigo no qual ressalta:
"Palavras não são inocentes, elas são armas que os poderosos usam para ferir e dominar os fracos. Os brancos norte-americanos inventaram a palavra 'niger' para humilhar os negros. Criaram uma brincadeira que tinha um versinho assim:
'Eeny, meeny, miny, moe, catch a niger by the toe'...que quer dizer, agarre um crioulo pelo dedão do pé (aqui no Brasil, quando se quer diminuir um negro, usa-se a palavra crioulo). Em denúncia a esse uso ofensivo da palavra , os negros cunharam o slogan 'black is beautiful'. Daí surgiu a linguagem politicamente correta. A regra fundamental dessa linguagem é nunca usar uma palavra que humilhe, discrimine ou zombe de alguém".
Será que na era Obama vão inventar "Pé na Presidência", para se referir aos negros e mulatos americanos de hoje?
A origem social é outro fator que gera comentários tidos como "inofensivos" , mas cruéis. A Nação que deveria se orgulhar de sua mobilidade social, é a mesma que o picha o próprio Presidente de torneiro mecânico, semi-analfabeto. Com relação aos empregados domésticos, já cheguei a ouvir:
- A minha "criadagem" não entra pelo elevador social !
E a complacência com relação aos chamamentos, insultos, por vezes humilhantes, dirigidos aos homossexuais ? Os termos bicha, bichona, frutinha, biba, "viado", maricona, boiola e uma infinidade de apelidos, despertam risadas. Quem se importa com o potencial ofensivo?
Mulher é rainha no dia oito de março. Quando se atreve a encarar o trânsito, e desagrada o código masculino, ouve frequentemente:
- Só podia ser mulher! Ei, dona Maria, seu lugar é no tanque!
Dependendo do tom do cabelo, demonstrações de desinformação ou falta de inteligência, são imediatamente imputadas a um certo tipo feminino:
-Só podia ser loira!
Se a forma de administrar o próprio dinheiro é poupar muito e gastar pouco:
- Só podia ser judeu!
A mesma superficialidade em abordar as características de um povo se aplica aos árabes. Aqui, todos eles viram turcos. Quem acumula quilos extras é motivo de chacota do tipo: rolha de poço, polpeta, almôndega, baleia ... Gosto muito do provérbio bíblico, legado do Cristianismo: "O mal não é o que entra, mas o que sai da boca do homem".
Invoco também a doutrina da Física Quântica, que confere às palavras o poder de ratificar ou transformar a realidade. São partículas de energia tecendo as teias do comportamento humano.
A liberdade de escolha e a tolerância das diferenças resumem o Princípio da Igualdade, sem o qual nenhuma sociedade pode ser Sustentável.
O preconceito nas entrelinhas é perigoso, porque , em doses homeopáticas, reforça os estigmas e aprofunda os abismos entre os cidadãos. Revela a ignorância e alimenta o monstro da maldade. Até que um dia um trabalhador perde o emprego, se torna um alcóolatra, passa a viver nas ruas e amanhece carbonizado:
-Só podia ser mendigo!
No outro dia, o motim toma conta da prisão, a polícia invade, mata 111 detentos, e nem a canção do Caetano Veloso é capaz de comover:
-Só podia ser bandido!
Somos nós os responsáveis pela construção do ideal de civilidade aqui em São Paulo, no Rio, na Bahia, em qualquer lugar do mundo. É a consciência do valor de cada pessoa que eleva a raça humana e aflora o que temos de melhor para dizer uns aos outros.
PS: Fui ao Ibirapuera num domingo e encontrei vários conterrâneos. ..
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* Rosana Jatobá, nascida em Campo Formoso, na Bahia, é jornalista, graduada em Direito e Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da Universidade de São Paulo. Também apresenta a Previsão do Tempo no Jornal Nacional, da Rede Globo. Esse texto é parte da série de crônicas sobre Sustentabilidade publicada na CBN.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
O desvio das contingências na direção da igualdade
“A idéia de reparar o desvio das contingências na direção da igualdade.”
(J. Rawls)
Acabei de deixar o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência - PIBID, do Curso de Filosofia da UFC, para assumir uma bolsa de iniciação científica - PIBIC. No sétimo semestre, prestes a concluir a licenciatura começo a definir alguns rumos que já vinham sendo desenhados. Esse tempo na licenciatura me fez repensar muitos desses rabiscos que eu vinha pretensamente formulando para o "meu futuro profissional". A pesquisa sempre foi o meu forte e a docência, começo a perceber, uma fraqueza. Uma fraqueza não por ser algo ruim ou estritamente negativo; fraqueza porque é onde eu não me centralizo e acabo por me angustiar ao não conseguir resolver os problemas todos do mundo. Penso e repenso e não consigo chegar a uma conclusão diferente: definitivamente é preciso fazer recortes no mundo para se construir alguma coisa em termos de humanidade. O PIBID me fez (re)perceber alguns graves problemas da educação pública básica de nível médio; problemas esses que eu mesma pude vivenciar no período em que estudei em uma dessas escolas. Depois de passar por esse “laboratório-vivo”, sob mais de um ponto de vista, e de tentar entender os processos que o formam e as suas reais necessidade e potencialidades enquanto micro-cosmo; enquanto parte de um todo, que é a sociedade em que vivemos ("psicótica, neurótica, toda errada", como diria o Nelson Gonçalves), eis que o "macro" me chama.
Um dos autores que venho "escavando", fazendo algumas leituras-bases e procurando costurar idéias é o Hawls. Um trecho de um livro dele que eu estava lendo, O Liberalismo Político, expõe um pouco essa questão da importância de se pensar o todo para analisar os seus recortes e o retorno desse estudo para incidir na realidade.
“Talentos naturais de vários tipos (inteligência inata e aptidões naturais) não são qualidades naturais fixas e constantes.São meramente recursos potenciais, e sua fruição só se torna possível dentro de condições sociais. (...) Aptidões educadas e treinadas são sempre uma seleção e uma pequena seleção, ademais, de uma ampla gama de possibilidades. Entre os fatores que afetam sua realização estão atitudes sociais de estímulo e apoio e instituições voltadas para seu treinamento e uso precoce.” (Rawls 2000: 172)
É de comum acordo dizer que todas as pessoas já nascem com igualdade de capacidades intelectuais. Para alguns teóricos essas capacidades se desenvolvem de acordo com a disposição genética de cada indivíduo; para outros, como é o caso do nosso filósofo, o desenvolvimento dessas habilidades será determinado pelas condições sociais, culturais e políticas sob as quais o individuo está submetido. Por tal posicionamento já podemos perceber que Rawls faz certa contraposição à máxima maquiavélica que influenciou fortemente o pensamento utilitarista e liberal-positivo tradicional: "os fins justificam os meios". Para Rawls são os meios que vão “determinar” ou ao menos influenciar os fins, e esses meios, contingentes ou não, podem ser pensados e ordenados de maneira racional através de uma justiça política que tem por base e fundamento a equidade.
(Continua)
Continuarei escavando e costurando para partilhar por aqui... :)
sábado, 3 de julho de 2010
Vamos Cuidar do Planeta - CONFINT 2010
Muito lindo esse vídeo da Conferência Internacional Infanto-Juvenil – Vamos Cuidar do Planeta (CONFINT 2010).
Motiva, emociona e me faz pensar que (talvez) seja possível sonhar com um mundo melhor... mais justo, humano e ambientalmente saudável!
Ahô!
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Parada Gay*
Por Alex Castro.
2002. Eu ainda casado. Plena Copa do Mundo. Jogo da seleção e churrasco com um grupo dos meus amigos de infância. Depois da comilança, eu e a ex nos levantamos e anunciamos estar indo pra praia de Copa ver a parada gay. Alguém quer ir junto?
Oh, o horror, o horror! Pela reação, parecia que tínhamos dito: vamos até o depósito de lixo comer merda, vocês acompanham? Pra começar, não acreditaram: Ah, não, fala sério. Não pode ser. O Alex fala essas coisas só pra chamar atenção.
Ficamos tão surpresos com aquela reação que praticamente só o que pudemos fazer foi confirmar que sim, íamos sim, qual era o problema?
Alguns simplesmente nunca acreditaram. Para eles, ir a uma parada gay era algo terrível demais para conceber alguém fazendo por livre e espontânea vontade. Outros começaram a questionar minha masculinidade. E poucos, os que perceberam que era verdade, ficaram perguntando: por quê?! por quê?!, como se quisessem entender, meu deus, o que poderia levar alguém a ir até o depósito de lixo comer merda.
Não há problema algum em não ir à Parada Gay, claro. Eu nunca teria ido se não fosse a ex querer ir e, se ninguém mais me levar, provavelmente nunca irei de novo. Não sou muito de festa. O que me chocou foi a reação.
Eu e a ex sabíamos que aquele povo era careta. Nunca tínhamos falado do nosso casamento aberto nem das experimentações sexuais que fizéramos. Afinal, pra que chacoalhar demais suas cabecinhas? Ainda assim, foi um choque perceber que até mesmo um programa vovó como ir a uma parada e ficar em pé na calçada vendo os carros passarem (sem precisar fazer nada!) era demais para os seus preconceitos. Como iriam reagir se soubessem um décimo de quem éramos e do que fazíamos? Eu sabia que vivíamos em mundos diferentes, mas não imaginava que eram tão distantes.
Por um lado, eu saí de lá feliz, sabendo que estava casado com uma mulher que pensava como eu, que era do mesmo mundo que eu.
E, por outro, fiquei um pouco triste. Sim, eram meus amigos de infância, meus amigos mais antigos, eu os amava e sabia que me amavam também.
Mas nunca me aceitariam.
* * *
*Essa crônica faz parte do livro Liberal Libertário Libertino, do Alex Castro. Foi copiado do blog: http://www.interney.net/blogs/lll.
domingo, 7 de março de 2010
Para senador, os negros são os culpados pela escravidão no Brasil
Fonte: http://blogdosakamoto.uol.com.br - 04/03/2010 - 13:05 498 Comentários
Ontem, durante audiência no Supremo Tribunal Federal para discutir o sistema de cotas em universidades públicas, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) usou da palavra para destilar todo o seu profundo conhecimento sobre a história do Brasil. Quem ouviu seu discurso saiu com a impressão de que aprendeu várias coisas novas. Que os africanos eram os principais responsáveis pelo tráfico transatlântico de escravos. Que escravas negras não foram violentadas pelos patrões brancos, afinal de contas “isso se deu de forma muito mais consensual” e “levou o Brasil a ter hoje essa magnífica configuração social” de hoje. Que no dia seguinte à sua libertação, os escravos “eram cidadão como outro qualquer, com todos os direitos políticos e o mesmo grau de elegibilidade” – mesmo sem nenhuma política de inserção aplicada. Com tudo isso, o nobre senador deu a entender que os negros foram os reais culpados pela escravidão no Brasil. As frases (da qual retirei trechos que estão entre aspas) foram registradas pelos jornalistas Laura Capriglione e Lucas Ferraz, da Folha de S. Paulo.
A posição do senador é compreensível, se considerarmos que o discurso feito não foi um ataque à reserva de vagas para negros e afrodescendentes e sim uma defesa da elite política e econômica que controlou a escravidão no país e que, com algumas mudanças e adaptações, desembocou em setores do seu próprio partido.
Depois me perguntam por que a proposta que confisca terras de quem usou trabalho escravo está engavetada no Congresso Nacional…
Um comentário sobre o direito dos libertados exposto pelo senador: Em meados do século 19, com o fim do tráfico transatlântico de escravos, a propriedade legal sob seres humanos estava com os dias contados. Em questão de anos, centenas de milhares de pessoas estariam livres para ocupar terras virgens – que o país tinha de sobra – e produzir para si próprios em um sistema possivelmente de campesinato. Quem trabalharia para as fazendas? Como garantir mão-de-obra após a abolição?
Vislumbrando que, mantida a estrutura fundiária do país, o final da escravidão poderia representar um colapso dos grandes produtores rurais, o governo brasileiro criou meios para garantir que poucos mantivessem acesso aos meios de produção. A Lei de Terras foi aprovada poucas semanas após a extinção do tráfico de escravos, em 1850, e criou mecanismos para a regularização fundiária. As terras devolutas passaram para as mãos do Estado, que passaria a vendê-las e não doá-las como era feito até então.
O custo da terra começou a existir, mas não era significativo para os então fazendeiros, que dispunham de recursos para a ampliação de seus domínios. Porém, era o suficiente para deixar ex-escravos e pobres de fora do processo legal. Ou seja, mantinha a força de trabalho à disposição do serviço de quem tinha dinheiro e poder.
Com o trabalho cativo, a terra poderia estar à disposição para livre ocupação. Porém, com o trabalho livre, o acesso à terra precisava ser restringido. A existência de terras livres garante produtores independentes e dificulta a centralização do capital e da produção baseada na exploração do trabalho. Com o fim do tráfico e o livre mercado de trabalho despontando no horizonte, o governo brasileiro foi obrigado a tomar medidas para impedir o acesso à terra, mantendo a mão-de-obra reprimida e alijada de seus meios de produção.
O fim da escravidão não representou a melhoria na qualidade de vida de muitos trabalhadores, uma vez que o desenvolvimento de um número considerável de empreendimentos continuou a se alimentar de formas de exploração semelhantes ao período da escravidão como forma de possibilitar uma margem de lucro maior ao empreendimento ou mesmo lhe dar competitividade para a concorrência no mercado. Desde 1995, mais de 36 mil escravos contemporâneos foram libertados pelo governo de fazendas de gado, soja, cana…
Para além dos efeitos da Lei Áurea, que completa 122 anos em maio, trabalhadores rurais ainda vivem sob a ameaça do cativeiro. Mudaram-se os rótulos, ficaram as garrafas.
Mas, principalmente, o Brasil não foi capaz de garantir que os libertos fossem tratados com o respeito que seres humanos e cidadãos mereciam, no campo ou na cidade. Herança maldita presente na sociedade. E alimentada por discursos como o de Demóstenes Torres.
PS: Posto o discurso do senador (a partir do minuto 33) a pedido de leitores. O que me lembra que um político é capaz de falar qualquer coisa de uma forma bonita…
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
A Questão do Haití e a Paz Perpétua de Kant
Estou trabalhando em um texto na tentativa de fazer um paralelo entre Kant e Rousseau, tendo como pontos principais a questão da Guerra, do estado e da História. Ao me deparar com a situação do Haiti, lendo o tratado kantiano À Paz Perpétua não tive como não remeter essa triste realidade ás sábias palavras do filósofo alemão.
* * *
O Haiti virou notícia. Não, não houve plena emancipação social e política daquele país... Não encontraram a solução para o seu título mais lembrado: o de país mais pobre do mundo. Não, um haitiano não ganhou o prêmio de melhor artista, intelectual, pacifista ou político do mundo. O Haiti foi ao chão. Ao chão em forma de escombros depois de um terremoto. Morreram haitianos (muitos), brasileiros, americanos, etc. Um país inteiro devastado pela força da natureza e a falta de estrutura mínima do Estado, concretamente falando.
Sabemos que o Haiti é um país conhecido por ser o mais pobre do mundo. Sabemos também que o povo haitiano vem sofrendo há anos com a situação política e social de seu país. Existe um estado de segregação no Haiti há bastante tempo, onde, esse povo tão guerreiro, que historicamente se libertou das correntes que os privavam de liberdade, nos últimos anos viu-se submetido á militarização e a governos que não atendem ás necessidades reais estruturais, em todos os sentidos, do território haitiano.
Muito se ouviu falar sobre o ocorrido com o Haiti na última semana. E muitas foram as causas apontadas para o ocorrido: a fúria da natureza como resultado da ação humana contra ela; a falta de estrutura, que fez com que as conseqüências do terremoto fossem mais desastrosas, etc. Vários podem ser os motivos que levaram ao que estamos assistindo todos os dias na televisão, lendo nos jornais, ouvindo nos rádios, nas ruas... Enfim. Podemos dizer que todos os motivos são válidos, no entanto, existe algo nas entrelinhas do ocorrido que também precisa ser ressaltado, e é justamente neste ponto que recorro ao legado kantiano em À Paz Perpétua, no Suplemento Primeiro sobre a garantia da paz perpétua:
"O que subministra esta garantia é tão-só a grande artista, a Natureza (natura daedala rerum), de cujo curso mecânico transparece com evidência uma finalidade: através da discórdia dos homens, fazer surgir a harmonia, mesmo contra a sua vontade. Chama-se, por isso, também destino, enquanto compulsão de uma causa necessária dos efeitos segundo leis que nos são desconhecidas, e Providência" (p. 23)*
Para Kant em termos de História Universal o homem é o fim último da natureza. Tudo o que acontece tem uma determinação, e esta é fruto da livre vontade intrínseca a natureza humana. Para ele os homens são, por natureza, maus, porém, eles mesmos desejam ser bons, mesmo que seja para viver comodamente. Então, transitando nessa ambigüidade presente em cada individuo, a humanidade caminha para a Paz Perpétua, e mesmo as guerras estão a serviço dela.
O que vemos no Haiti é justamente essa ambigüidade. O caos da violência e da miséria em convívio com a solidariedade e a compaixão. É um retrato pleno do que Kant expõe em sua obra. Sendo assim, a luz do pensador de Königsberg, espero que a História da Humanidade, Universal e cosmopolita aprenda com o Haiti e pelos “haitis”, e que ao superarmos essa fenda que acomete o mundo possamos olhar com maior admiração para a história desse povo em especifico e possamos respeitá-los, não em função do desastre ocorrido, mas por sermos também co-participes dos haitianos enquanto espécie.
Somos o Haiti! "O Haití, é aqui"...
* A edição consultada para a citação encontra-se on-line no endereço: http://www.lusosofia.net/textos/kant_immanuel_paz_perpetua.pdf.
Ediane Soares
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
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