sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Eu quero

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Eu?

"Eu quero é o explêndido caos de onde emerge a sintaxe", (da Adélia Prado)
A semântica e a morfologia.
Eu quero a magia da noite que vira dia...
Quero copos virados,
Quero tragos, espasmos, cuidados.
Quero o lírico e o empírico.
Quero o impróprio e o que for lícito.
A física quântica das emoções tardias...
A micro célula da destruição de um medo!

Quero a perfídia, perdida, lascada e ferida!
Sim, é assim que quero a morte e a vida.
Quero medir o sangue que corre no álcool
De todas as veias éticas ou etílicas!

* * *
Diz Drumond:

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra.

Adélia explica:

Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe
os sítios escuros onde nasce o ´de´, o ‘aliás´,
o ‘o’, o ‘porém’ e o ‘que’, esta incompreensível
muleta que me apóia.

Eu calo.

Ediane Soares


=> Moralidade e "pós-modernidade"

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A moral e essa tal ‘pós-modernidade’

O que é o homem? O que é a mulher? O que são os seres humanos? Questões que nos remetem a muitas outras. Questões que não poderiam ser respondidas pontualmente, sob o risco de não darmos conta das diversas subjetividades que estão contidas nos conceitos em questão.

Tornamo-nos mulheres e homens na medida em que vamos vivendo e compartilhando o processo contínuo de transição da sociedade. Falar de um ponto de partida aqui é negligenciar a idéia de circunscrição que se atrela à questão da subjetividade. Mesmo quando tratamos da característica fundamental da alteridade, a dialética entre subjetivos, não podemos delimitar muito as coisas. Portanto, a questão central para uma reflexão neste sentido seria no campo das possibilidades que nos são visíveis atualmente no que diz respeito à moralidade e a ética na convivência entre diferentes.

A moralidade que permeia os indivíduos na atualidade é cheia de contradições, incredibilidades, desdém e etc. Não falo de uma moral reguladora ou normativa, mas da moral enquanto forma de ver o mundo e a vida em sociedade. A moral como precursora da ética; uma ética pautada no respeito às diversas subjetividades, opiniões e práticas.

O termo moral carrega na sua definição uma série de conceitos históricos. Atribui-se a moralidade muito do que temos hoje, especialmente o aspecto regulador e normativo das relações, herança do moralismo patriarcal. Talvez por esse motivo, quando falamos de moral, moralidade, moralismo e etc., facilmente as pessoas remetem a esse aspecto. Nesse sentido é possível perceber certa 'mágoa', ou preconceito, ao tratar desse assunto. Parece-me que muito do que foi dito e feito em função disso causou uma má impressão, de tal forma que acabamos por nos encontrar em um processo de desconstrução desses conceitos, provavelmente é isso o que muitos chamam de pós-modernidade.

Esse termo pós-modernidade soa para mim com um ar de delimitação de tempo e espaço que não condiz muito com o processo contínuo de transição pelo qual a humanidade perpassa. Porém, ao mesmo tempo, simbolicamente, esse termo tem sido designado para ilustrar a fatia de tempo pela qual estamos passando agora, desde uns dez anos. Pós-modernidade, assim, traduz muitos aspectos que podem ser caracterizados como negativos presentes nos tempos atuais, como certo imediatismo, consumismo, individualismo, apatia ou descrença diante das discussões políticas, entre outros.

Essas idéias que vão sendo vivenciadas dão forma a moralidade que está sendo construída, sempre em processo contínuo e não delimitado metodicamente. Percebemos esses traços sendo feitos, desfeitos e refeitos de maneira simultânea, o que nos leva a não dar conta, muitas vezes, de todos os processos. Não há um começo, um meio e um fim na construção de referências e conceitos, o que há, considerando-se os aspectos imediatos e fugidios, são muitas informações sendo suplantadas conforme o interesse de quem as expõe de maneira indireta, aleatória e transversal ás vivências e diversas formas de vida e condições sociais. Claro que todo o quadro não se resume a apenas isso, porém a informação, ou o chamado mercado de informação, tem um papel fundamental e pontual na formação de opiniões e conceitos, logo, implicando uma participação direta na questão da moralidade.

Ediane Soares

(Em construção)

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

=> Idílio da Contemplação II - "Insônia"

"Insônia"

Conheci rumores
E reconhecia-me em seus enlaces.
Mereci todas as dores que senti nesse início de vida e prenuncia de morte.
Reconheci encantos,
Firmei contratos imaginários
Sonhei com a passividade do lugar comum.
Desmembrei sorrisos,
Idealizei paraísos,
Vida após a morte, eu estava lá.
Mas ao contemplar teu sono, tua insônia e despertar.
Vi-me entre dois abismos
Abaixo deles mais abismos
Até a infinitude da minha admiração.
Não respaldo o que pensei
Submeto meu julgo ao teu cheiro, aos teus braços, ao teu amor.
Porque juntos somos como a humanidade inteira
Nossas causas, nossas lutas, nosso alvorecer de flores!
Caminharemos rumo a terra nova
Ao sonho maior: seremos livres!
E assim despertaremos para o que puder ser, e será.


Ediane Soares

terça-feira, 16 de setembro de 2008

=> Idílio da contemplação

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São teus olhos de criança que contemplo
São os olhos que me dizem o quanto hei de saber
São teus olhos... das pálpebras às pupilas
Que convidam minha tez a contemplar teu ser...
Pela admiração e pelos gestos
Tuas palavras me convidam a trafegar
Em novos rumos, outras palavras, outras estradas menos fugazes
E bem mais afáveis e reais...
É pela poesia que contemplo teu querer bem
A poesia que é a soma do meu tempo com o que sei e o que posso ver...
A poesia que só se pode ler com a ponta dos dedos descobertos
E que só se deixa encontrar ao pé do ouvido, de pés descalços e sob lençóis...


Ediane Soares



quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Alteridade (II) - Alteridade, política e sociedade

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Alteridade, política e sociedade

Quando falamos de alteridade enfatizamos a importância do/a OUTRO/A para que se estabeleça uma relação ou até mesmo uma construção do SI MESMO e da noção de INDIVÍDUO. Isso levando em conta a alteridade enquanto categoria antropológica de relação.

No campo da política a alteridade deixa de ser apenas categoria antropológica de relação para fazer-se ponto de partida para a construção e reconstrução da sociedade nos seus diversos espaços, ideais e instituições. Alteridade aqui configura o surgimento do “ser – para – o/a – outro/a".

Nos vários sistemas políticos que já existiram ao longo da história nas diversas sociedades, a alteridade esteve presente, mesmo que implicitamente, e até mesmo como expressão do domínio de uns sobre outros.

E hoje, especialmente no Brasil, como podemos perceber a alteridade no campo da política e da sociedade? Vivemos em um quadro político cheio de contradições e aspectos negativos que foram sendo 'construídos' ao longo dos anos. Uma espécie de crise ética, onde facilmente associa-se a política à corrupção, isso na política enquanto sistema de organização da democracia e administração do estado, fazendo com que as pessoas não sintam atração pelas questões políticas, como participação, organização popular e etc.

Em um contexto internacional a política está intimamente ligada ao processo de globalização. Algo que aproxima os distantes e separa os próximos. Cheio de paradoxos desde a sua forma embrionária. No contexto do sistema capitalista a globalização é um forte aliado, pois ajuda a manter suas contradições e garante seu foco: a guerra pelo capital.

Do ponto de vista da alteridade podemos afirmar que este quadro é reflexo do quanto O/A OUTRO/A é negligenciado em nome dos interesses de alguns indivíduos. A política, nesse contexto, deixa de ser algo de uns para os outros reciprocamente, e passa a ser um simples e disputado jogo de interesses de UNS contra OUTROS e vice versa.

Diante disso tudo é notável a carência de informação e o quanto isso implica em um agravamento dessa situação, pois para muitos, política não passa de uma formulação abstrata e inexistente de fato, como algo que apenas é percebido em época de eleições ou mediante os escândalos nos bastidores da administração pública. Nem mesmo nos disparates das guerras as pessoas ligam imediatamente os fatos à conjuntura política. É lamentável fazer tal análise, porém, acredito que esse quadro faz parte do processo contínuo de transição e reformulação da sociedade e dos diversos espaços políticos e de convívio social, não sei se para melhor, mas vejo como um fato, embora só o conceba em seu aspecto mobilista.

No campo das relações ‘alteridade, política e sociedade’ seria uma espécie de “tripé” para dar forma à essa construção coletiva dos indivíduos. De maneira que os valores dessas relações seriam pautados para o bem estar comum, possibilitando às pessoas uma mutualidade de cooperação. Dessa forma o ideal seria um sistema político que traspassasse de maneira transversal a sociedade, de forma abrangente e efetiva. Porém, antes da implantação de qualquer sistema político seria necessário acontecer uma reviravolta, mesmo que paulatina, nas questões morais da sociedade. Assim, ao invés de termos um sistema político que apenas visa a legalidade, teríamos uma nova estrutura social.

(*)

É algo um tanto vago ainda, por enquanto, mas é até onde meu raciocínio me leva no momento.

Mesmo porque, penso, que no contínuo processo de transição essa reviravolta não será facilmente perceptível, como não é atualmente. Mas pode ser que daqui a muitos anos será algo real, e assim, partindo de uma nova moralidade, com novos valores que considerem a real situação e percepção das pessoas e da natureza como um todo, um sistema político que de fato visa a igualdade social será possível.


Ediane Soares




domingo, 7 de setembro de 2008

=> Sobre vontade e solidão

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"É complicado estar só, quem está sozinho que o diga..." (Renato Russo)

Olha eu novamente falando da solidão, citando o Renato Russo e com essa vontade danada de abraçar o mundo, as pessoas e todas as possibilidades... ás vezes parece que eu vou explodir de tanta vontade, de tanta vaidade e de tanto encantamento diante da vida, da morte e da sorte de variadas coisas que clamam pelo infinito de impossibilidades.

Vontade. Os filósofos que mais admiro e tenho lido no momento tratam esse tema com uma paixão tão grande, que eu não sei se gosto deles por isso ou se me embaraça profundamente esse tema ao ponto de ter chegado ao pensamento deles, minimamente ainda...

Solidão e vontade, duas questões que me instigam a pensar hoje. Não elegi esses temas, acho que é aí que reside a "suprema ventura a quem foi concedida a graça da loucura" como tão bem coloca o Platão no Fedro. Surgi no mundo, nos últimos meses, com o intuito genuíno de conhecer, ou ao menos provar um pouco, da vontade ou das diversas vontades que residem à razão e a emoção, e para mim particularmente, na fusão entre as duas: a poeticidade.

Quero a poesia como quero um gesto, uma brecha, uma fresta, um moinho.
Quero ter vontade em demasia, em potência, em ato, em desmesura, em desmedida.
Quero a vida, a morte, a lida, as idas e tantas vindas.
Quero o eterno retorno, quero o outro, a outra, a humanidade inteira!
Quero desde a última motivação, a penúltima e a primeira (e vice versa)...
Quero a mentira, a fantasia, a controvérsia
E quero verdades prometidas...
Quero inteiras e partidas
Só não perguntem, por favor, se me convém querer a solidão...
A solidão acompanhada, medida, pré-meditada...
Porque é no tanto querer que a minha infinita vontade clama por estar só.
E é na solidão que poderei enfim, sentir, que estou acompanhada...

É na solidão das diversas bocas, falas, gestos, protestos e brigas, que a minha vida será vida, plenamente vivida.

Sendo assim cogito: sou um EU, esse EM SI, EM TANTOS?


Ediane Soares