sábado, 16 de agosto de 2008

Alteridade (I) - O/A outro/a e a felicidade

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O/A OUTRO/A E A FELICIDADE

"Vem de mansinho a brisa e me diz: é impossível ser feliz sozinho..."

Simone de Beauvoir já afirmava no Segundo Sexo que a alteridade é uma categoria fundamental do pensamento humano. De fato sem OUTRO/A não há UM/A. Essa frase que acima citei, e não por acaso de um dos maiores poetas/compositores brasileiros, Tom Jobim, ilustra bem essa questão.

Porque se defende tanto essa tese de que a felicidade como fim último da existência humana é impossível de se realizar na solidão? Porque é importante ter o outro/a para que a felicidade "se realize de fato"?

Crescemos ouvindo as histórias de amor que terminam em "e viveram felizes para sempre" normalmente acompanhado de uma bela cerimônia de casamento. Projetar um para sempre é uma característica que ilustra bem a necessidade metafísica dos seres humanos. E quando esse para sempre vem acompanhado pela apropriação do outro/a fazendo com que a alteridade deixe de ser uma categoria de relação e passe a ser o passaporte para inúmeras frustrações e contradições nas relações interpessoais, é que percebemos claramente que historicamente essas características vêm sendo moldadas pelos diversos apelos da sociedade. Sociedade essa, marcada pela moralidade patriarcal, pelo consumismo exagerado dos últimos tempos, pelo machismo e por diversos preconceitos.

Ter o/a outro/a é muito mais cômodo do que percebê-lo como um/a indivíduo/a dotado de subjetividade e autonomia diante da vida. É claro que essa apropriação de uma pessoa por outra é um fato ilusório, pois, pode-se ter alguém corporalmente, moralmente ou psicologicamente, mas é impossível dar conta da subjetividade de alguém. É justamente nesse ponto que o/a outro/a enquanto propriedade não passa de ilusão. E é essa ilusão que sustenta ao longo dos tempos os modelos de relacionamentos presentes até hoje no mundo todo, seja nas relações passionais, sociais, profissionais e etc.

Apesar de muitas coisas terem mudado e de a sociedade está em constante transformação, ainda são notáveis esses modelos, até mesmo entre as pessoas mais conscientes e bem informadas. Essa idéia de ter sempre um/a em detrimento de outro/a; de sempre alguém agir ativamente em relação a alguém passivo; e principalmente a absolutização dessas características em um/a indivíduo/a que domina um/a outro/a são traços que normalmente permeiam esses modelos.

Se for impossível ser feliz sozinho/a quem dirá acompanhado dessa forma! Ora, não fomos educados a viver de maneira auto-suficiente, e acredito que a vida é bem mais interessante compartilhada, porém, é preciso ser um/a antes de sermos dois/duas ou mais. Conhecer a si mesmo enquanto projeto, não necessariamente isolando-se do mundo e das pessoas, mas buscando não depender, e nem fazer dependerem de nós, emocionalmente, psicologicamente, financeiramente e etc., é um exercício que precisa ser trabalhado no desenvolvimento da nossa personalidade. Para isso não é preciso deixar de "conhecer" as outras pessoas ou participar de coletivos, mas procurar ter a compreensão de que o indivíduo, como parte do todo que nos rodeia, é um projeto em construção que precisa ser revisado e melhorado a cada momento.

Nem o indivíduo é um ente acabado e absoluto, nem a felicidade precisa ser o marco referencial de uma utopia. Podemos ter momentos felizes, como também infelizes, no sentido de experimentar sensações e construir-se enquanto pessoas e alteridades. No mais, os contos de fadas estão longe de abraçar a nossa complexidade relacional, assim como também a filosofia, a ciência ou a religião.

Cabe-nos, ouvir à máxima socrática como inspiração para o bem viver e conviver: "conhece-te a ti mesmo", e diria mais, reconhece-te a ti mesmo ao olhar para o/a outro/a, assim é possível perceber a transversalidade da teia relacional da vida.

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Um comentário:

Wesley Alves disse...

Ediane, uma das investigações mais prestimosas da sua já consagrada filosofia. Meus parabéns. Peço que me permita publicar em momento oportuno essa sua produção em nosso grupo de discussão filosófica.
Concordo com vc em tudo que disse... e olha que tenho visões díspares da sua moralidade, mas, diante de argumentos tão bem organizados, só posso dizer que estou diante de uma grande filósofa. Meus Parabéns.

ps: NÃO FALTE MAIS AS AULAS.
RS.