quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Desacertos do mais

Seu ato virou ex-ato. Exato como os átomos atados ao corpo estendido na cama às dez e meia da manhã.

Ela virou de um lado para o outro e não conseguia mais dormir. Não cumpriria a sua meta de criar olheiras maiores que a sua vontade de isolar-se durante aqueles dias que seriam longos e nem um pouco gentis. A tensão pré-menstrual, quando vinha acompanhada da lua cheia e das suas manifestações ao ritmo das marés, fazia-a pensar no quanto a sua sanidade era frágil. E cada vez que o ciclo menstrual pregava-lhe essa peça astral ela quebrava-se, e fazia desta a sua mais legítima desculpa para qualquer descontrole físico, quântico ou emocional.

Seu amor tinha um outro amor. Mais próximo do que ela. Mais antigo. Mais perdido também. Mais real. E ela percebia que a ilusão que alimentara, página por página, de um livro-diário, de poesias diárias, sobre um amor que sequer cultivara transmutava-se em um mero-amor que agora esvaziava-se.

Os traços da sua loucura, alucinação e medo de falar, tinham feito daquela quase-história, que ela alimentara tão sutilmente e intensamente, apenas a motivação do seu tão querido "estado de fossa". Resultara, enfim, em noites e mais noites de bebidas e canções. Na companhia mais querida, de seus amigos mais queridos. E coincidentemente parecia que a nuvem do estado de fossa pairava pela cidade inteira... muitos de seus amigos compartilhavam com ela alguma dor. E as noites de à gosto à se tem bro convertiam-se em bossas, baladas e estragos poéticos de machucar corações transeuntes e saltitantes no ar.

A melhor parte desta parte à parte de tudo, era que de agora em diante ela poderia seguir. E seguiria vendo os perfeitos defeitos de seu affair desmanchando-se no ar. Seriam amigas, talvez. Fariam confidências falsas e recíprocas. Beberiam juntas. Juntariam risos. E as coisas todas conspirariam para o esquecimento ensaiado e penado durante várias vezes em tão pouco tempo.

E assim, enquanto alguém no aprimoramento de suas gírias repetia "penso demais, logo super existo", ela caitaneava a sua perdição... "Colheu, esticou, encolheu, matou, furou, fodeu... até ficar sem gosto".

E nessa onda de poetas, profetas, putas e promessas, ela esqueceu a água do café no fogo que evaporou e queimou o recipiente que agora ganhara nova cor. Ferveria esperançosa (ou não) uma nova porção de água e faria o melhor café dos últimos dias. Seu café da manhã a acompanharia durante todo o dia e ela veria graça em sair mais tarde alardeando o empate entre as rimas de novas esperas e o seu malogrado amor. Esqueceria de almoçar. Comeria uma empada bem recheada no café da rua de trás do trabalho. Trabalharia em novos versos. E conversaria virtualmente, mais uma vez, com seu decadente calcanhar sem Aquiles, mulher.

2 comentários:

guilherme gonçalves disse...

seu blog foi parar no meu blog. tomei a liberdade antes de pedir permissão. rs adorei o texto.

Inaê disse...

Incrivel...
como você consegue preencher todas as palavras!

Admirações mil!