segunda-feira, 16 de agosto de 2010

(En)fim (não necessariamente nessa mesma ordem)

Nadificar. Fazia tempo que ela não conjugava esse verbo com tanta certeza. Com o tempo todos os excessos tornaram-se naturais... Naturais até demais para os olhares nus dos fins das noites. Naturais de menos para quem se acostumou a ver navios naufragarem em seu coração:

- Meu coração é de água, se não souber nadar se afoga.

Ela não queria dizer nada com isso. E esse não dizer falava demais, magoava uns, pouco importava para outros. E ela sempre entendia-se, e não entendia nada. Tinha um grande afeto pelo moço, e eles poderiam ser um lindo casal feliz. Ele era feliz com sua paciência. Seu equilíbrio. Sua sutileza... Mas hoje, justamente hoje ela estava triste, e não olhou para ele enquanto falava. Ele só trazia (e traria) alegrias. Ela remorso. Dor de cotovelo, por causa de um novo affair, e alguns esguichos certeiros, cheios de controvérsias.

Ela, que até então estava cheia de dúvidas, agora tinha duas certezas imprescindíveis para o aperto que a conduzia pelas ruas dessa cidade, em plena segunda-feira, de vento, de sortimento, de estupor. Ela que outrora permitia-se supor, escreveu um livro. Fino, colorido, sutil... Com o maior carinho que se pode ter por uma pessoa desconhecida. Nesse instante ela revia forçosamente como em um filme, as cenas dos últimos três meses. E se não houvesse uma (relativa) longa pausa no meio disso tudo talvez ela estivesse revendo uma peça de teatro, ou um musical...

No fundo ela já sabia. E repetia isso fervorosamente. Estava angustiada. Triste. Preocupada. De certa forma culpada. E sentindo-se um tanto quanto só.

Parecia que o desfecho que ela pretendia não passava de uma conclusão vazia... e ela não conseguia expressar uma palavra sequer que significasse coisa alguma. Tudo conspirava a favor do nada... tudo era o nada, o "não mais".

Chegou em casa cedo. Pegou o livro que estava fora da estante... não teve reação alguma que lembrasse a necessidade da leitura. Tomou um café. Acessou a internet. Fingiu a serenidade que requer um "bate-papo" via "msn". Com alguém que não via muito sentido nisso, geralmente. E foi como se sua última gota de inspiração sucumbisse ao vazio de palavras forjadas...

E acabava assim. Virtualmente, como começou. E desapercebidamente, aos olhos de uma solidão tardia e tão urgente. Terminaria o livro? Talvez (agora ela sentia vergonha por tê-lo escrito). Como costuraria, enfim, página por página, cola quente, acabamento, emoção? Não sabia. Gostaria de dormir agora e acordar no dia 29 de maio de 2010. Escreveria tudo outra vez, mas com palavras ao contrário, imagens ofuscadas e cores em tom de cinza.

- Nenhuma palavra. Escrevo a ausência que delas (dela) sinto, e a presença de quem por elas me instinto.

Fim.

(não necessariamente nessa mesma ordem)

Um comentário:

Lampejos disse...

Eu te ajudo a costurar, colar..mas não deixe de forjar suas palavras!

" - Meu coração é de água, se não souber nadar se afoga."

e quer dizer tanto!