sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A fluidez dos corpos e o bandido

O moço pedalando, como quem desfila na passarela mais badalada, passou sem olhar para os lados. Ele sempre passava por aquelas bandas, não para ver alguém, mas para ser visto. Passou feito um vulto numa semi-escuridão. Era início da noite e ele preparava seu espírito para celebrar, mais tarde, a sua temporária solidão.

Ela fitava a rua, com a sua contra-esperança, quando avistou o moço passante. São amigos e existe entre eles um apego desprendido que chega a ser confuso de tão verdadeiro. Ele gosta dos desenhos animados mais sem graça e ela tinha por hobby ler pessoas e condensar suas impressões. São pólos distintos e não tem a menor intenção de se completarem, nem tampouco de representar, um para o outro, coisa alguma que possa fazer sentido.

Palavra por palavra, ela permaneceu sentada na cadeira azul do bar de quase sempre. Em boa companhia e lamentado o acaso das "causas perdidas". Alheia ao que os jornais televisivos transformam em notícias, mas percebendo as dores do mundo. Sentindo profundamente as certezas mais simples das intenções de alguns motivos e as incertezas mais banais de circuitos paradoxais não muito complexos.

A passagem do moço, naquele exato momento, justo naquela direção e sem nenhuma outra manifestação, causou nela a sensação de efemeridade que ela mais gosta de sentir: a fluidez dos corpos. Que bailam sorrisos, lágrimas, canções, recitais, confusões... e que vão e vem... que são e tem o sentido das cores do tempo.

- Olha o Bruno Victor!
- Ele deve tá indo pro “Assis”...
- Deve ser, mas ele tem que passar por aqui né?!
- Quem será que ele quer ver?
- Que nada, num quer ver ninguém não, ele passa é pra ser visto esse "bandido"!
- É, de fato ele é exibido mesmo.
- Hahahaha
- Hahahaha...

2 comentários:

s. disse...

A passagem descomprometida do moço concretizou as sensações efêmeras da moça e colocou um ponto final nas histórias que rolavam nas esquinas escuras. Ele passou, ela passou, e o resto, é só o resto mesmo.

êêê! \o/

Inaê disse...

Esse bandido!!!