segunda-feira, 26 de julho de 2010

Fragmentos: Sobre um Certo Pedro

"Pedro, onde cê vai eu também vou, mas tudo acaba onde começou"


Tem um certo Pedro na minha vida... Meu irmão mais novo. Filho do terceiro casamento do meu pai. Pedro Neto, em homenagem ao meu avô paterno, uma figura boêmia da qual tenho a nítida lembrança do quanto aprontava pelo mundo. Ouvia muitas histórias dele, mas assim como o meu pai, sumiu no mundo. Tenho raras notícias. Mas voltemos ao Pedro.

A primeira vez que ouvi falar do Pedro Neto foi quando minha mãe descobriu que meu pai tinha uma amante e que ela estava grávida. Era uma moça que tinha quase a idade da minha irmã mais velha, a que é filha do meu pai com a minha mãe, assim como eu. Além dela e do Pedro existem mais três. Dois do primeiro casamento, o Fabrício e a Flávia e uma outra que foi de uma relação rápida que meu pai teve em algum momento. Não sei muito sobre ela, só sei que se chama Andréa.

Quando o Pedro estava para nascer, meus pais se separaram. Confesso que na época esse acontecimento me trouxe um grande alívio. Não suportava mais tanta confusão. O ruim de tudo foi só ter que ver, bem de pertinho, o quanto a minha mãe sofreu com tudo isso e vivenciar as conseqüências de tudo, momento por momento. Foi quando a vida me pediu para crescer. Não sei se fui capaz de atender, mas lembro-me bem de todo esse processo.

Durante muito tempo só conhecia o Pedro por nome. Passaram-se pouco mais de seis anos até o dia em que pude vê-lo pela primeira vez. Nunca vou esquecer esse dia. Aquele pivete de óculos (assim como eu ele tem hipermetropia desde pequenininho), todo falante dizendo:

- Eu queria tanto conhecer minhas irmãs! N’era Pai?!

Durante um bom tempo, até ele aprender a dizer os nossos nomes, ele nos chamava de "irmã". Muito engraçado, até a minha mãe ele chamava de "irmã".

Naquele dia, na primeira visita, me apaixonei por ele. Meigo, inteligente e sincero. Falando pelos cotovelos (me identifiquei muito com ele) e dizendo que tinha gostado muito da nossa casa - quero morar aqui com vocês - ele dizia.

Depois desse dia passou-se mais de um ano e meio, aproximadamente, para poder revê-lo. Nesse intervalo nos falamos umas duas ou três vezes por telefone.

Na segunda visita o Pedro já tinha oito anos! Estava maior, mas continuava meigo, inteligente e sincero. Ainda dizia que gostava muito da gente e lembrava direitinho dos nossos nomes. Contou-nos sobre a escola onde ele estudava e do lugar onde ele morava. Foi então que percebi o quanto o Pedro era uma pessoa sensível e pura.

Só para contextualizar: quando os meus pais se separaram, meu pai sumiu. Simplesmente foi embora e eles não se divorciaram, porque na época minha mãe adoeceu e acabamos quase perdendo o contato com ele. Com o tempo fomos tendo notícias de que ele tinha saído do trabalho, estava morando numa favela, próximo ao Antonio Bezerra, e que vivia uma situação econômica bem complicada. Nós, minha mãe, minha irmã e eu, passamos a morar na casa do meu avô e da minha avó (maternos), pois, tivemos que alugar a nossa casa para ter uma renda mensal. Nessa época a minha mãe não trabalhava e com a doença dela minha irmã teve que trabalhar e logo em seguida eu também tive que fazer o mesmo.

Voltando ao Pedro, novamente...

O Pedro dizia que não gostava da Escola onde estudava. E dizia que não tinha muitos amigos onde morava, porque passava o tempo todo dentro de casa (meu pai tinha muito medo que o Pedro se envolvesse com os outros meninos da rua, porque não queria que ele virasse um "marginal", ele dizia isso).

Depois do segundo encontro, houve apenas um terceiro. Que foi bem rápido. Meu pai passou em um dia de Natal com ele na casa dos meus avós. Não pude conversar direito com o Pedro, mas lembro que ele me deu um abraço e um beijo no rosto que até hoje, quando lembro, posso sentir. Depois disso mais uma vez meu pai sumiu. Apareceu algumas vezes. Minha mãe formalizou o divórcio. Mas ele nunca mais trouxe o Pedro para nos visitar. Também nunca fomos a casa deles. Nunca nos foi atrativo, tampouco fomos convidadas.

Sei que meu pai cuida do Pedro como pode. Sei também que comigo e a Edineuda ele sempre deu muita atenção e cuidado, do jeito dele. Mas fico imaginando quando será o dia (ou se esse dia chegará – tenho quase certeza que sim) em que o Pedro vai sentir essa mesma sensação que sinto quando falo ou lembro do meu pai. Essa sensação de não-lugar. Esse distanciamento quase visceral. Essa não pertença que chega a ser tão intensa, ou mais, do que o laço de paternidade que de fato temos.

Sinto muita saudade do Pedro. Lembro dele todos os dias. E estou pensando seriamente em lhe fazer uma visita. Será que ele me recebe?

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