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domingo, 6 de julho de 2014

Anarquia estética de um amor real

- Na anarquia estética de um amor real, há incestuosas palavras de uma razão perdida.

Esse amor é uma sombra
colorida sobre olhos rasos...
é um pequeno espanto
uma pausa compassada
um toque suave
uma espera feliz
uma menina livre
um rapazinho levado
uma mentira sem maldade
uma maldade sutil
um endereço trocado
um tropeço estabanado
um aconchego febril.

Esse amor, que de tão errado
acerta em cheio algumas arestas
fecha portas e abre frestas
segue e rompe como deita e esperta...
causa sortimento
ampara solidão
silencia o lamento
aprecia um choro vão
beija o vento
abraça a perna
se engraça em sinos
afaga e trepa.

Sim, amores também trepam
Como pássaros em árvores tortas

como peixes que saltam sem ar.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Canção dialética

Te amo por que transitas
entre anoiteceres e alvoradas
te amo por que tua estrada
é atravessada por paisagens abertas
te amo por que teu rosto
mais que bonito, expressa multidões
te amo por que no tempo
questão de espaço é só ilusão
amo tua ausência
teus medos
amo o segredo
a abnegação
amo teu desvelo
teu complexado cabelo
amo teu corpo e os teus variados passos
amo a tua pressa
a minha espera
amo saber que nada vai bastar.

Te amo pela luta armada
mesmo que tuas armas
não sejam mais que as mãos
amo a tua raiva e a utopia
amo teus desejos e a convicção
amo a transição
amo a solidariedade
a tua solidão e a tua revolta
te amo revolucionária
moça de família
amiga-irmã de muitos
inimiga isenta de alguns poucos
te amo algóis da carne de porco
te amo porto, ponte, trampolim
te amo sem um para mim
te amo mês de fevereiro
amo-te o ano inteiro
amo a concepção
as pedradas
amo molotov
máscaras e caras
no apoio ao fronte ou na revelação.

Te amo numa intentiva abortada
amo-te poesia-fogo-espada
amo a tua luz de dia
amo melodia
amo compaixão
te amo na eterna fração
da ânsia coletiva ou do individuo absurdo
dos abraços e submundos
te amo gozo, férias, exaustão
te amo trabalho puxado
amo tuas salas, sentidos, faros
amo tuas aulas e a preparação.

E amo mesmo tudo estando frouxo
o feixe, o enlace, o endosso
amo essa lógica invertida
a chegada-partida
o que escorrega entre as mãos.

Te amo e canto a persistência
amo a paciência e falta de atenção
amo a anuência de endereço
amo teu rarefeito fim-recomeço
teus homens, teus jargões
amo os teus sermões
e todos os anos que nos precederam
eu amo o teu terreiro
amo tua nação, teu pai
tua mãe, tua irmã
- tua famigerada ilha de observação.

Amo tua esperteza
teus acertos tortos
tua memória líquida
teu não lugar
teu desligar
teu encontro em vão.

Eu amo sim, teu casamento
amo teu coletivo
teu movimento
amo a tua mola em contramão.

Te amo e amo-te tal qual a força
que sobre mim exerce tal contradição
te amo, e não.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Vírgula

"Além, muito além onde quero chegar
Caindo a noite me lanço no mundo
Além do limite do vale profundo
Que sempre começa na beira do mar
É na beira do mar." (Zé Ramalho)

Pela vírgula
a palavra pára
e no silêncio há olhos
e ressacas...

Há dança na areia
há cheiro de mar
ataraxia
aporia
gratidão.

Há o abraço-seio
troca de perna-areia
uma metade e meia
há curiosidade
e o [b]ar.

domingo, 30 de março de 2014

Cantiga da multidão de dentro

Caindo água do céu, morena
- é tão sublime o dizer -
é o segredo da terra encantar
como o não conhecer
e no minuto fatal, estar lá...
eis o ponto:
Abraça
a já muito querida companheira,
celebra a luta
lamenta o amor...
Todos os dias são dias demais para se contar.
Todo recomeço é cheio de esperas
e alguns indícios:
- há algo de novo surgindo na multidão de dentro.
São ideias que se bastam em realidades
são saberes que se negam ampliando-se ao azul.
É um riso não familiar,
é uma silhueta que se complementa insone,
um beijo que se estranha,
a indignação que se reivindica sã.
A totalidade serena se empolga
marca hora de voltar
e perde-se no tempo.
Aceita,
chama,
cala,
fragmenta,
levanta-se e é o fim:


- há algo de novo sorrindo na multidão por dentro.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Confissão XX

(ou do bem)

Meu bem,
seja o bem do mundo
de ti
das tuas crenças
do teu trabalho
dos teus freios necessários
seja o bem dos armários
e dos seres todos do mar...

Pois insisto e acerto
e promessa alguma garante o incerto
e ao meu desejo é permitido libertar...

Saravá!
Que não hajam limites que não sejam claros,
permanência que não seja voluntária
imanência que não se possa abstrair...
E ao seguir
que o silêncio nunca seja atropelado
nem o incenso aceso um incendiário
pois o meu corpo, mais teimoso do que eu
re-clama:
Ele quer o teu cheiro
tua mão na cintura (que é a coisa mais linda)
quer o teu cabelo solto
tua boca doce
teus olhinhos pequenos
tua curvinha nas costas
teus pés quentes ou gelados
tua nuca
(arrepios)
gemidos
sustos
gestos...
e um suspiro no final.

Afinal, querer é matéria nossa
"estamos aqui pra ensinar"
e apreender.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Confissão XIX

(Oração do que importa ou "da confusão")


Importa um dos cinco dedos, de um dos pés
para dizer que importa saber de cada parte
de cada sílaba
e cada letra de cada nome citado
e cada vírgula de silêncio reverenciado.

Importa dizer que o teu rosto inspira amanheceres.
Importa dizer que são várias cores envoltas em “vocêres”
que os lábios se espelham
que os olhos se envergam
que o nariz confessa, ao cheirar...

Importa o cheiro de suor impregnado no lençol.
Importa a espessura, a largura, o comprimento (e o cumprimento).
Importa o aconchego espertado
o abraço sem jeito, apertado.
Importa falar demais.

Importa saber se é “bom dia”
se é vazia a intenção.
Importa perceber quantas vias de regras poderíamos romper... e não saber.
Importa esquecer para lembrar.
Importa esperar... res-pirar... res-peitar.

Para que o versejo não seja de todo perdido.
Para que partida alguma perca seu sentido.
Para que hajam gritos e silêncios pontuais.
Para que não sejamos apenas “mais”, mas sejamos “mas”, no campo das possibilidades.
Para o nosso passo ser um misto de orgasmo e gratidão.

Pelo tempo, pelo movimento, pela sensatez.

Por nossos amores, por nossos clamores e contradições (confusões).

domingo, 12 de janeiro de 2014

Cílios

Os olhos fechados podem ler a espera
podem ver sentidos
penetrar abismos
podem abrir-se para a luz.

De olhos fechados o poeta talha-se
e de apertados cílios nascem a sorte e o azar.

São os olhos do poeta que se inspiram
são suas lágrimas e suas iris que tecem versos noturnos.
À luz do dia os olhos do poeta silenciam
calando até o mais estridente ruído.

Os olhos do poeta são pedaços
estilhaços
bagaços
farrapos
pó.

São os olhos do poeta que se enganam
quando muito, amam e desamam
(na velocidade da luz ou do tempo)
e por vezes proclamam
o que deveriam calar.

Os olhos do poeta andam falando demais, até quando fazem silêncio.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Sentença

Ao Guimarães Rosa, pela Terceira Margem do Rio.
"Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio." (http://www.releituras.com/guimarosa_margem.asp)

Por opção
A fadiga das noites
Adormece tarde...
Primeiro inspira
Depois adormece.

As meninas ao deitar
Passam por todo o território do tempo
São óvulos e pacatas senhoras de uma vez só.
Viver nesses dias de hoje
Parece roubar de si mesmas a capacidade de digerir
Assuntos, pendências, vontades, gestos, movimentos, pausas...

Escolher o insubordinado e negar a subserviência
Foi o caminho mais curto e mais largo que a imaginação supôs
Quando chegou na rota do real
O caminho estreitou-se e cresceu absurdamente.

Não é um vazio qualquer
Não há folhas secas, pássaros mortos
É um vazio cheio
Completamente grávido de amanhã
– E gravidez planejada, pela procriação, pela projeção, pela comodidade do lar.

Não é apenas a terceira margem de um rio, como o do Guimarães
É a primeira ponta de uma estaca recém entalhada.
O tempo da mulher, parceiro das horas, pede pressa
Para que as meninas caminhem devagar, de vagar.

Se viver não for um susto
Que não seja também um prego martelado na mão de mais um herói.
Que viver seja leve, como é óbvio escolher uma prisão no lugar da sentença de morte.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

De serpente


No sertão de uma espera
Cabe a vontade severa
Um riso malino
Um pedaço de mimo...
Cabe a revolução
De um corpo serpenteado
De abraços embriagados

Desejos, revoltas, ressacas.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Hipótese

Trocaria a minha dor pelo teu riso
Sentiria frio
Nasceria em abril depois de 1986
Aprenderia francês, alemão, português
Dançaria uma valsa descalça e feliz
Seguiria em frente sem poder
Dissertando em uma fábula
Pra te presentear com um príncipe...

E te confessaria minha liberdade
Transmutaria em olhares a ideia do teu beijo
Rasgaria a tua menor idade
Resgataria a velhice dos teus passos
Levitaria no teu tempo
Nas tuas verdades
E tuas medidas...

Seria a falta de um ombro amigo
Seria a ausência de insurreição...
Abriria mão do gozo mais intenso
E seguiria frígida no teu para sempre,
Mas o teu para sempre é o meu agora
E eu te dedico em versos rasos minha rapsódia vã.


terça-feira, 8 de outubro de 2013

Meia noite

É uma parte da noite que rodeia
a outra parte da noite que gorjeia
saudade à parte a meia noite é noite inteira
de minha parte a dor reparte a noite e meia.

.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

reverso


fazer a ponta do lápis em contra-árvore
mover a ponta do dedo em contra-senso
romper com a linha de ponta
apontar pro acaso.
- mudar quando for lua cheia.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Guerra ao Paz-cifista

No deserto do real (como disse o Luiz)
É normal encontrar-se louco
Dissertando absurdos vazios
Enchendo de sentido a falta que este faz...
São milhares de vozes que insistem
Em tudo dizer, nada guardar
São infinitas possibilidades de silêncio
Que preferem a paz de um cemitério
À realização contínua de uma guerra necessária:
Bombardear cada aclamação de "cessar fogo"
Que não represente a necessidade de lutar.
Fogo, pra quem nega fogo
E se esconde atrás de suas fardas e "armas não letais".
O perigo da paz consiste em ter sua forma mais realista
No constante desejo de sua utópica realização.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Pontas

Como o ruído da porta
que teima em abrir
e a temperatura do sopro
no mais espontâneo suspiro,
é o meu amor e suas arestas tortas:
ama, enquanto apara e aponta;

repara e se deixa nascer em outras pontas.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

elogio do não-lugar

Lugares parecem tão pouco, diante do que representam e das afecções que despertam.
Um não-lugar, por sua vez, é algo que não representa.
Não tormenta.
Não afeta.
Um não-lugar é feito de lugares desconhecidos que o alimentam.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

do que há


Para além do suspiro
um suave grito
de alerta é calado.

Há um só povo
sofrido.

Um só gole
afogado.

Uma saudade
um sentido
um menino, menina e mulher
um acaso que se quer...

Há um lugar
que é o mais felino do mundo:
meu nariz
no teu cheiro
um segundo.

Há o amor.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

"Faz carreira"


Mas se por acaso em uma dessas voltas que dizem que o mundo dá a gente se encontrar, a gente se querer, a gente se entender, o corpo aconchegar, a gente se entregar, a gente se perder, faremos o tempo parar ou colocaremos o passado pra correr?

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Inversos

Ou o espírito breve de um tempo.

A vida em reviravolta traz o mesmo. O mesmo que sempre esqueço. O mesmo que sempre vejo, mas nego. Nego, como quem negocia, vende, troca. O mesmo que deseja ser o novo. O “novo”, enquanto termo mesmo.

Infância, escolhas, medos, mentiras, coragens, pesadelos, pesares, amores. Amores encontrados. Amores que passaram. Amores que ao passarem permaneceram e permanecem. Amores lícitos e imaginários. Lícitos que são inventados e imaginários realizados. Amores cheios de realidade. Cheios, como não  mais suportando. Amores pouco levados. Amores pesos, amores alívios, amores livros, amores rasos, amores cores, amores amados, amores misturados, amores vindouros, amores retratos. Frutos de paixões antecipadas. Filhos de uma mãe estéril e eternamente grávida. Filhos de uma mãe, que enluarada, perdia-se entre uma gestação e outra.

Desaprendendo aprendizados sigo acordando para alguns erros.
Para as verdades a-dor-meço.


"O mundo exterior cessa de existir, mas abrem-se à exploração novos mundos fantásticos e ainda mal suspeitados. O poeta não vê com os olhos, mas apesar dos olhos." (HOLANDA, Sérgio B. de)

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Désir


"Eis que nasce completo 
e, ao morrer, morre germe,
       o desejo, analfabeto, 
de saber como reger-me,
       ah, saber como me ajeito 
para que eu seja quem fui,
       eis o que nasce perfeito 
e, ao crescer, diminui."
(Leminski)


Desejo o que segue
(o que pode seguir)
um amor que acaba
a vontade que passa
o sonho que acorda
o medo que encoraja.

Meu desejo é um sino badalado e calado.
Uma volta que não se repete.
O absurdo que já não surpreende.

Nada de vintage, blasé, démodé ou à cartel
Quero um pedaço de realidade para redesenhar o meu céu.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

"Nemo iudex in sua causa"


Ou "da causa".

Deixe a chuva cair
veja o vento soprar
sinta o frio
(aqueça-se)
obedeça a lei da contravenção
beije suas regras
legitime o amor
devore a causa perdida
(onde ganha quem se perde)
- Os perdidos de amor elevam-se ao finito
e tudo o que mata o amor os faz renascer
dos cinco sentidos (um por um)
à ponta do lápis.