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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Crenças

E de repente, ter esperança, parecia uma missão impossível. Ela, descrendo das soluções coletivas, apegava-se agora à crenças ingênuas. Sua individualidade escondia-se até mesmo da necessidade que ela tinha de pelo menos desfrutar de uma companhia por vez. Eis a crença: não estar só. Eis a ingenuidade: estar.

E nessas linhas seguiam verbos, transitos, transeuntes, chuvas, acasos, poesias, nostalgias, elegias, vazios, lembranças, andanças, prosopopéias e imaginações.

E a coisa que ela mais sentia era a sanidade mental que a sensação de acreditar proporcionava.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

"... a gente de girau"

Acabo de chegar de um velório.
A falecida, uma senhora de 99 anos de idade, morreu de velhice, disseram.
Morreu de tanta vida, eu sabia.
A senhora do caixão, que trabalhara a vida inteira de sol à sol; lata na cabeça; roupa para lavar no rio; cuidado com os filhos, os delas e alguns outros, pudera ser 'a madrinha', uma entre tantas outras Marias, que naquela tarde de ambiguidades jazia.

Na lembrança, rasa e dispersa, eu recordava o pretenso e marcante diálogo de quase todos os encontros:

- Minha filha já casou?
- Não tia, casei não...
- Pois num case não, minha filha, esses homens só querem é fazer a gente de girau!

Sábia Maria Paula! Sábia mulher... sabia do mundo e do cosmo o terço que lhe cabia.

(O girau)

sexta-feira, 4 de março de 2011

Das primas

Estava dando uma "passeada" pelos blogs que costumo acompanhar e me deparei, em dois deles, com um tema bastante comentado nos últimos dias em vários espaços por onde passei. Me senti provocada, e então comentei, em um deles. Segue.


"Bravo! Me mata de orgulho...
Mas por falar em "primas", sempre que me deparo com esse tema lembro de alguém com quem convivemos na infância e que hoje exerce essa "profissão". No que pode se transformar um "sonho", uma aspiração adolescente por uma vida "boa", por um amor ideal?

Esse tema, de fato, é bastante delicado. É muito mais complexo do que se supõe, pois envolve inúmeras relações (juízos)de valores... envolve uma moral que vela a palavra para não ter que condenar ou absorver o ato. Para isentar-se. Se por um lado você tem as "casas das primas" ou "casas da luz vermelha", como ilustração de uma forma de "lazer" noturno para os consumidores desse serviço, por outro você tem o estigma da prostituição, da venda do corpo, da abnegação da subjetividade que pode envolver uma relação sexual em nome do dinheiro, que embora seja falado como fácil, de fácil mesmo não se sabe o que se tem. Enfim...

Um salve às prostitutas!" (in: http://edineudasoares.blogspot.com/2011/03/primas.html#comment-form)

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Olhei também o da Fê: http://serafernanda.blogspot.com/2011/02/o-outro-lado-da-noite.html



segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Para além da satisfação

Não se tratava de espanto, era a magia de ver-se encantada pela realidade mesma, o real em si, o fato. Tentava condensar aquela sensação de "tudo bem" com o friozinho na barriga de se ver todos os dias dos últimos meses, de beijar e querer beijar, de abraçar aconchegantemente, de desejar e fazer amor. Não estava impressionada com os acontecimentos dos últimos tempos. Tampouco a impressionava o desfecho que a vida proporcionara para esse momento; um começo de cliclos prometedores de coisas reais. E o melhor: é na realidade mesma, crua, objetiva e leve que a imaginação a servia das melhores ideias e conclusões. "Foi para ver a menina além do universo", e viu e versa.

Dois lindos meses de descobertas. Encontros. Medidas. Acertos. Comunicação. Prazer, para além da satisfação...

E o que conduzia a poesia que agora a acompanhava por dentro era a metáfora do que de fato importa. Saiu gritando para os mundos onde habitava o "ínterim" em questão:

- Razão e emoção, meu bem, habitam a mesma morada. Ocupam, na mesma morada, cômodos diferentes; entre elas há uma porta larga e alta, que se encontra sempre aberta. O trafego entre um lado e outro é livre. E a escolha por qualquer um dos lados é in-circunstancial. A questão é lembrar que, antes de passar de um lado para o outro, é preciso vestir-se de cuidado e empatia. Não se alojar em um dos dois esquecendo-se de visitar o outro lado vez por outra.

Sorriu.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Perplexa eu. E o mundo?

Estava tentando instalar os infinitos programas que apaguei do meu computador ao reinstalar o sistema operacional, e enquanto baixava as informações necessárias dei um "rolé" pela internet, lendo e-mails e notícias, quando acabei me deparando virtualmente com o (nosso?) mundo real.

Eis a notícia que me despertou a curiosidade: Pare o "estupro corretivo". Primeiro fiquei curiosa para saber do que se tratava, depois fiquei perplexa quando li a notícia. Trata-se de uma campanha do Avaaz.org, contra a prática do estupro praticado contra mulheres lésbicas na Africa do Sul.

É complicado, para o meu discernimento, perceber que a dimensão do "nosso mundo" é tão limitada nas diferentes culturas e regiões. Pensar que uma questão como a orientação sexual de uma mulher será "resolvida" com um ato de violência sexual é no mínimo desdenhar a inteligência da natureza, que "nos fez" capazes de diversidade e racionalidade... liberdade e desejo.

O que fazer diante de algo dessa dimensão? O que pensar? O que sentir? Não sei. Acho que o nosso mundo tem feridas abertas que nem a cultura, a informação ou a simples compreensão do outro como extensão da individualidade, que independente de mim me completa enquanto espécie, são capazes de me responder.

Segue o link da campanha. Eu assino...


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Suicídio e Alteridade

Nesses últimos dias recebi notícia de três suicídios ocorridos nas últimas semanas. Eram pessoas próximas a outras pessoas que eu conheço, e os três, jovens entre 20 e 30 anos, eram homens e tinham alguma habilidade artística ou intelectual. Fiquei muito sensibilizada com isso, cheguei a me entristecer um pouco, mas o que, de fato, me intriga é a inquietação filosófica que esse tema me traz.

O suicídio é, sem dúvidas, uma das questões filosóficas mais complexas e intrigantes. No Mito de Sísifo, Camus, começa dizendo "Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia." E a questão fundamental da filosofia é a vida. E todas os outros temas são apenas ramificações desse tema. Umas dessas ramificações é a questão "do outro" ou da alteridade. Falar da vida é levar em consideração a coletividade que  ela pressupõe. Todas as espécie viventes, vivem na coletividade, direta ou indiretamente. A natureza, o meio ambiente, o universo, o cosmo e etc, são espaços de plena coletividade, e, historicamente fazem parte das investigações filosóficas de vários pensadores das mais diferentes épocas e correntes.

O tema da morte e da alteridade não são normalmente associados. Porém, quando falamos da morte pelo ato de suicídio, então muitas questões surgem e uma questão central é a da solidão. Entendemos por solidão o sentimento extremado de individuação, seja por opção ou por conseqüência das questões existenciais mais intimas de uma pessoa. A solidão pressupõe a existência de um convívio social anterior a ela. Aponta também a negação, não necessariamente voluntária e consciente, desse convívio.

As causas que levam uma pessoa a saltar da solidão à morte são desconhecidas e por demais obscuras. O que podemos analisar são apenas os sintomas mais visíveis que antecedem esse salto. Penso que não seria possível julgar se a causa que levou alguém a "desistir" da vida seria ou não plausível, diante do valor que nós atribuímos a ela. Segundo Camus, "Galileu, que detinha uma verdade científica importante, abjurou-a com a maior facilidade desse mundo quando ela lhe pôs a vida em perigo", talvez para Galileu a sua descoberta não valesse a sua vida, ou, podemos analisar que para Galileu abrir mão da sua descoberta não implicaria uma questão existencial que o levasse a não ver mais sentido na sua vida. Eis a questão central que permeia o tema do suicídio: o sentido da vida.

Apenas o individuo na sua subjetividade mais profunda é capaz de discernir, ou melhor, de sentir se a sua vida vale a pena ou não. Seja por que motivo for, se não houver mais motivo para continuar vivo, quem poderia impedir que alguém opte pelo suicídio? Alguns, movidos pela emoção do momento, poderiam pensar "aquele abraço que não dei, as palavras que não falei, as vezes que não pude comparecer, quando não pude ouvir, etc", mas na verdade mesmo, penso, que o suicídio é uma decisão por demais "dolorosa" para ser questionada com certa antecedência. É nesse ponto que a questão da alteridade entra.

Talvez, se não reduzíssemos as relações entre as pessoas à meras conversas em mesa de bar, ou encontros casuais, bate papos na internet com suas "redes sociais", dentre outras lacunas que fragmentam o principio da alteridade, não precisaríamos nos sentir culpados em situações como esta. A nossa sociedade é movida por motivações artificiais, por ações virtuais, por relações de comércio, pela ascensão do ter sobre o ser. É preciso pensar em um novo jeito de viver em sociedade para não nos transformarmos em uma sociedade de suicidas em potencia e em ato.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Ébrio


Voe passarinho, voe... faça desse amor esse não lugar tão secreto, tão discreto, tão ébrio...

domingo, 12 de setembro de 2010

"tempo de cada um"

Chegou em casa cansada, mas um tanto feliz, pelos avanços dos últimos dias. Sua inspiração esteve ausente, mas assim que acessou à internet se comunicara com ela virtualmente. Ficou contente com isso. Respondeu discretamente, mas logo se arrependeu. Depois de algum tempo de "conversa", lendo atentamente os relatos dos últimos dias, entristeceu-se. Às vezes parece tudo em vã(n)o... e não é?!

De assalto, vestiu-se de contratempo, rabiscou alguns desabafos do momento e transcreveu um verso seu de outro intento. Encaixou o primeiro texto no segundo e construiu uma amálgama de dizer-sentir. Ela agora pensava nessa história de "tempo de cada um". Mas isso não poderia fazer, para ela naquele estado de nervos, o menor sentido. Então vai...

"É! Que passe então... já que sem o que é "passageiro" o trem da vida não pode trilhar. Sim, pode ser ciúmes. Pode ser que eu quisesse que fosse algo mais, sabe?! Pois é... e eu não tenho vocação para salvar ninguém, nem tenho moral para condenar, nem quero ter, nenhuma coisa nem outra. Deixe-a passar, eu diria. Deixe-a partir para além do que eu possa dedicar à ela como presente. Como a fita de um cabelo solto. Como a carnificina que impera no poder. E se ela quiser e puder voltar, deixe-a saltitante escolher entre o ir e vir, quantas vezes quiser... que a liberdade da qual ela é dotada fará desse amor sempre um mérito e um demérito qualquer possessão. Deixe-a passar. Deixe-a ficar. E deixe que ela saiba que se outros amores forem necessários, e serão, que ela seja feliz. Deixe-a passar. Que o essencial é o que fica. Deixe-a assim ficar e partir. Que é de partes que o todo será feito e desfeito quantas vezes forem possíveis e necessárias."

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Desacertos do mais

Seu ato virou ex-ato. Exato como os átomos atados ao corpo estendido na cama às dez e meia da manhã.

Ela virou de um lado para o outro e não conseguia mais dormir. Não cumpriria a sua meta de criar olheiras maiores que a sua vontade de isolar-se durante aqueles dias que seriam longos e nem um pouco gentis. A tensão pré-menstrual, quando vinha acompanhada da lua cheia e das suas manifestações ao ritmo das marés, fazia-a pensar no quanto a sua sanidade era frágil. E cada vez que o ciclo menstrual pregava-lhe essa peça astral ela quebrava-se, e fazia desta a sua mais legítima desculpa para qualquer descontrole físico, quântico ou emocional.

Seu amor tinha um outro amor. Mais próximo do que ela. Mais antigo. Mais perdido também. Mais real. E ela percebia que a ilusão que alimentara, página por página, de um livro-diário, de poesias diárias, sobre um amor que sequer cultivara transmutava-se em um mero-amor que agora esvaziava-se.

Os traços da sua loucura, alucinação e medo de falar, tinham feito daquela quase-história, que ela alimentara tão sutilmente e intensamente, apenas a motivação do seu tão querido "estado de fossa". Resultara, enfim, em noites e mais noites de bebidas e canções. Na companhia mais querida, de seus amigos mais queridos. E coincidentemente parecia que a nuvem do estado de fossa pairava pela cidade inteira... muitos de seus amigos compartilhavam com ela alguma dor. E as noites de à gosto à se tem bro convertiam-se em bossas, baladas e estragos poéticos de machucar corações transeuntes e saltitantes no ar.

A melhor parte desta parte à parte de tudo, era que de agora em diante ela poderia seguir. E seguiria vendo os perfeitos defeitos de seu affair desmanchando-se no ar. Seriam amigas, talvez. Fariam confidências falsas e recíprocas. Beberiam juntas. Juntariam risos. E as coisas todas conspirariam para o esquecimento ensaiado e penado durante várias vezes em tão pouco tempo.

E assim, enquanto alguém no aprimoramento de suas gírias repetia "penso demais, logo super existo", ela caitaneava a sua perdição... "Colheu, esticou, encolheu, matou, furou, fodeu... até ficar sem gosto".

E nessa onda de poetas, profetas, putas e promessas, ela esqueceu a água do café no fogo que evaporou e queimou o recipiente que agora ganhara nova cor. Ferveria esperançosa (ou não) uma nova porção de água e faria o melhor café dos últimos dias. Seu café da manhã a acompanharia durante todo o dia e ela veria graça em sair mais tarde alardeando o empate entre as rimas de novas esperas e o seu malogrado amor. Esqueceria de almoçar. Comeria uma empada bem recheada no café da rua de trás do trabalho. Trabalharia em novos versos. E conversaria virtualmente, mais uma vez, com seu decadente calcanhar sem Aquiles, mulher.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Boa companhia

Esqueci até de que não poderia beber hoje.
Hoje (ontem?) foi daqueles dias em que a minha memória insiste na mesma imagem
E a inspiração conspira por um mesmo verso
E a ausência grita
E a vontade salta
E a verdade dói...
Pois foi.
Daí, encontrei a Inaê no meio do caminho
Conversinha boa
A melhor companhia de sempre
Cervejinha gelada
Papo furado
Companhias transeuntes passageiras, transversais
(a do Bruno Victor foi a mais gostosa, e a da Gra também)
E por fim: Caetano!
No caminho de volta pra casa
Vento no cabelo
50km/h, sem pressa...
Ela fica em casa
Sigo para a minha, junto aos meus
E a música do caminho só ecoa a equação
Obrigada monstrenguinha...
Madrugada, Inaê e as minhas confusões...
"Nosso estranho amor - Caetano".


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Nosso estranho amor
(Caetano Veloso)


Não quero sugar todo seu leite
Nem quero você enfeite do meu ser
Apenas te peço que respeite
O meu louco querer
Não importa com quem você se deite
Que você se deleite seja com quem for
Apenas te peço que aceite
O meu estranho amor
Ah! Mainha deixa o ciúme chegar
Deixa o ciúme passar e sigamos juntos
Ah! Neguinha deixa eu gostar de você
Prá lá do meu coração não me diga
Nunca não
Teu corpo combina com meu jeito
Nós dois fomos feitos muito pra nós dois
Não valem dramáticos efeitos
Mas o que está depois
Não vamos fuçar nossos defeitos
Cravar sobre o peito as unhas do rancor
Lutemos mas só pelo direito
Ao nosso estranho amor...


domingo, 29 de agosto de 2010

No Olimpo

"Todos os dias nascem deuses
Alguns maiores e outros menores do que você...
Esse é o alvorecer de tudo que se quer ver
Sem fazer sombra na melhor hora do sol
Eternidade duradoura com sossego então
Melhor que fique assim
Todos os dias nascem deuses
Alguns maiores e outros menores do que você...
Essa é a janela dos outros em ação
Beijos explodem como bombas ao anoitecer
Brinquedos avançados acendendo o som
Não estaremos dormindo
Todos os dias fazem deuses
Alguns melhores e outros piores do que você..."

Depois de um fim de semana complexo e febril: forças para dar o gás nessa semana que começa.
E nada melhor que Nação Zumbi para dizer, tocar, cutucar, sentir... arrepiar!

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No Olimpo (Nação Zumbi)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Mesmo na apatia

Em resposta ao poema "Solidão coletiva?" de Fernanda Rodrigues, em seu blog: http://serafernanda.blogspot.com/

Há o que resgatar? Será que não estamos lutando em vão por uma causa perdida? Será que a causa, mesmo sendo a mesma que movimentou multidões ao longo da história, não necessita de uma nova motivação, uma nova roupagem, uma "nova luta"? Não seria esse novo "antropocentrismo" que você sutilmente aponta e critica o sintoma de que os coletivos tal como se apresentam não conferem mais as necessidades do caos que é a sociedade atual? São apenas questões minha cara... são questões, nada mais... Vamos pensar que o futuro é conseqüência do presente, e dessa forma, não nos deixemos abater pela desesperança, nem tampouco nos agarremos a esperança como a substância última da nossa existência. É preciso compreender a emergência do presente, do que agora nos aparece a olho nu, para lançar olhar adiante, sem medo, sem desespero. Até as grandes guerras que já aconteceram no mundo contribuíram para coisas que hoje não são tão ruins (informática, progresso das ciências, avanços tecnológicos de um modo geral), quem sabe essa apatia que paira sobre as cabeças dos indivíduos dessa nossa contemporaneidade possa trazer frutos ainda maiores do que as "grandes revoluções barulhentas" ou as "grandes batalhas". Quiçá a vida continue a nos surpreender e a história a nos ensinar a não se espelhar apenas no passado, mas a viver, intensamente o hoje, mesmo na apatia.

Obs.: "Será Fernanda?" blog muito bonito, por sinal... =)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Rock pai, Pop filho

Zeca Baleiro

Foi o rock que arrombou a porta e por essa picada aberta agora desfila um teatro de horrores sem estofo e a serviço de uma triste ideologia.

O rock surge na década de 50, depois da Segunda Guerra, em meio à desolação do mundo e à necessidade de recriá-lo. O rock vem com a força de um furacão e mexe de forma definitiva no comportamento das pessoas e com a indústria cultural como nunca dantes visto. É transgressor, subversivo, questionador, abusado, rompe com valores estabelecidos, afronta a caretice vigente. A eclosão do rock coincide com o surgimento da televisão e é a pedra filosofal do que se conhecerá adiante como cultura pop.

Chego então aos tempos de hoje. Para constatar como a cultura pop, criada a partir do advento do rock’n’roll, foi-se diluindo, diluindo até chegar a um ponto que equivale à sua própria negação. “O que ontem era novo, hoje é antigo”, já atestava o poeta Belchior nos anos 70. Seu verso poderia derivar para “o que era transgressor hoje é careta”, tamanha a inversão de valores que há no mundo atualmente.

Pois o “Big Brother” e todos os sórdidos reality shows que infestam a tela da tevê, a publicidade cínica vestida de rebeldia cosmética, o circo do show biz e seu ridículo manual de atitudes, a pândega vale-tudo dos programas de humor, o rock programático e meloso das bandas emo, tudo que existe de mais acintosamente anti-rock’n’roll no mundo hoje é, por incrível que pareça, cria do rock. Foi o rock que arrombou a porta e por essa picada aberta agora desfila um teatro de horrores sem estofo e a serviço de uma triste ideologia: o benefício próprio, o enriquecimento fácil, o culto à fama mais que ao trabalho, a desmoralização de toda e qualquer virtude, o desprezo pelo passado e pela memória e o hedonismo mais perverso e sem charme de todas as eras. Se o rock lutava contra o estado de coisas do seu tempo, seus herdeiros lutam para manter as coisas como estão.

Caos x cosmo

Os místicos creem que após todo caos surge um cosmo, como os historiadores sabem que após toda idade de trevas surge uma nova era luminosa. Nunca porém o mundo esteve envolto nesta névoa de instantaneidade e fugacidade que a tecnologia digital nos trouxe. Em nenhuma outra época a ditadura do presente e a conectividade foram tão valorizadas como agora, por um motivo talvez banal: há ferramentas para isso. “Se há ferramentas, por que não usá-las?” – perguntam-se todos.

Conheço umas três ou quatro pessoas que optaram por não ter celular. Engana-se quem pensa que vivem no mato, como ermitões em busca da paz e da sabedoria perdidas. Não, são pessoas urbanas, ativas e ligadas à comunicação. Não têm celular para não perderem outra conexão, mais cara a elas: a conexão consigo próprias.

O mundo hoje é pura evasão. Não à toa, há um boom notável no turismo internacional. A arte aspira ser só entretenimento. E a informação transformada em espetáculo. Mesmo territórios quase sagrados, como a literatura, agora vivem no fio da navalha. Recentemente foi publicada bombástica notícia. Dois adolescentes adaptaram clássicos da literatura universal para o Twitter. Ou seja, transformaram a literatura no oposto do que ela pretende ser. O que era fruição lenta, reflexiva, prazerosa e gratuita, agora é expressa, rasa e a serviço da performance, do tipo “ganha quem ler mais!”...

O mundo futuro será alimentado de informações segundo a segundo. Eventos interativos a todo instante. Tudo dividido entre todos os mortais. Menos o dinheiro, o afeto e o respeito.


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Fonte: http://www.istoe.com.br/colunas-e-blogs/coluna/94907_ROCK+PAI+POP+FILHO?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Filosofia da Desconstrução

Aula de Teoria do Conhecimento...

Sim, é isso. Estou na aula de Teoria do Conhecimento I. Não conclui essa cadeira há uns dois anos atrás por alguns motivos pessoais (que não vem ao caso agora).  Na mesma sala, com o mesmo professor (o que agrava a situação) e a mesma vontade, entusiasmo e paciência (ou a falta dela).

Hoje, quando saí do “trabalho” (quase um hobby), aproveitando a carona de minhas colegas queridas, resolvi trazer comigo o computador. Desse modo não teria que passar por lá novamente para pegá-lo, já que precisarei dele comigo hoje à noite quando chegar em casa.

Não faz o menor sentido estar aqui nessa sala ouvindo essa mesma ladainha. Não faz o menor sentido entender que "enfim, estou aqui novamente ouvindo o mesmo dito professor dizer exatamente as mesmas coisas que não fazem o menor sentido". Não conheço quase ninguém dessa turma. Umas duas ou três pessoas, no máximo. O que não é tão ruim... levando-se em conta que assim posso ficar aqui quietinha, fingindo que estou super presente na aula, e no entanto está aqui escrevendo essas bobagens... esperando ansiosa o tempo passar. Que passe então...

Gosto muito da Filosofia. Aprendi a conviver de maneira harmoniosa com ela. Não com a Faculdade de Filosofia, com esta não há consenso... estamos sempre em desacordo. Mas sim com aquilo que construí e que hoje concebo como sendo Filosofia. Na verdade são várias, nisso concordo com a pedagogia kantiana, são filosofias... e uma delas me atrai muito "a filosofia da desconstrução". Do diálogo. Da diversidade de conhecimento. Do equilíbrio entre o que podemos conhecer, pressupor e realizar.

Em Teoria do Conhecimento vamos estudar algumas "correntes" tradicionais da História da Filosofia. Ceticismo e Dogmatismo. Idealismo e Realismo. Racionalismo e Empirismo. Veremos nessas "correntes", na perspectiva do pensamento filosófico tradicional, essa diversidade e até onde elas podem ou não incidir na realidade (principalmente o não, nesse caso). A outra possibilidade (a de incidir na realidade) é tarefa que cabe a quem está no processo de entendimento dessas Teorias. E é aqui que tá a tal Filosofia da Desconstrução. Não uma desconstrução destrutiva, mas transformadora, no sentido de que é preciso abrir mão do simples entendimento e olhar para a realidade, a atualidade, enfim: o mundo. Há quem chame isso de "Filosofia Aplicada", mas acho que esse termo “aplicada” é bastante limitador das possibilidades e pouco provocativo ao entendimento prático.

Enfim... para enfrentar a Teoria do Conhecimento: a desconstrução! E na próxima aula eu tento me concentrar e intervir por aqui de alguma forma. Eita! aula interminável e vontade sem fim de ir pra casa continuar a ler o Höffe, ouvir umas musiquinhas, passar um café de leve, escrever, e prestar atenção nas idéias dos últimos dias...
Resta-me esperar!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Minha dúvida metódica (nada) cartesiana

“Creio que nunca existiu nada do que a memória mendaz representa; não tenho nenhum dos sentidos todos; corpo, figura, extensão, movimento e lugar são quimeras. Que será, então, verdadeiro?”

(DESCARTES).

A dúvida é um alimento.
Alimento da vontade de conhecer, de perceber, de conceber.
Alimento e falta de alimento.
Alimento e angústia, dessa mesma vontade.

Sabe quando começamos a fazer algo, julgando estar fazendo esse “algo” em sã consciência, e de repente essa mesma coisa, prestes a ficar pronta, não faz o menor sentido?! Pois é...

Eu sempre tive muita vontade de fazer uma coisa. Ensaiei várias vezes. Mas nunca, até pouco tempo, tinha encontrado um motivo que ao menos fosse "coerente" para que eu pudesse enfim realizar o meu desejo de fazer esse algo. Não sei exatamente o porquê dessa necessidade de um motivo. Mas enfim, recentemente o motivo surgiu.
Logo depois aprendi a técnica, pus a mão na massa, e ficou quase pronto. Quase...

A intenção era terminar antes da segunda semana de agosto.
Todavia, no entanto, porém... já tem uns dias que não consigo sentir vontade de terminar.
E já estava tão perto.

Acho que me enganei ao pensar que para fazer algo tão significativo (é muito significativo) bastaria vontade e intenção. Mas é algo que está para além. Não pode ser um simples presente (talvez), ou não pode ser uma simples promessa (eu não sei), ou não deve ser feito dentro do recorte de uma fração de tempo (efemeridade), uma emoção, uma confusão, um sentimento.

Penso que me enganei de movimento. Talvez para tal realização só a imparcialidade me conferiria a concretização. Talvez a razão tivesse ajudado. Talvez eu estivesse enganada. Existe uma ausência, um vazio imenso, entre o que eu estava fazendo e o “em que” esse meu fazer se transformou.

Não será mais um presente. Não será mais um transparente capuz que usarei para não falar sobre o que o meu objeto tão concreto quer dizer. Não será mais satisfeito o meu desejo de presentear a motivação de um feito com ele mesmo.

Me duvido muito enquanto a isso, e nada sei do que será. Será?!
Oxalá a vida não se atreva a me aprontar...

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Fragmentos: Sobre um Certo Pedro

"Pedro, onde cê vai eu também vou, mas tudo acaba onde começou"


Tem um certo Pedro na minha vida... Meu irmão mais novo. Filho do terceiro casamento do meu pai. Pedro Neto, em homenagem ao meu avô paterno, uma figura boêmia da qual tenho a nítida lembrança do quanto aprontava pelo mundo. Ouvia muitas histórias dele, mas assim como o meu pai, sumiu no mundo. Tenho raras notícias. Mas voltemos ao Pedro.

A primeira vez que ouvi falar do Pedro Neto foi quando minha mãe descobriu que meu pai tinha uma amante e que ela estava grávida. Era uma moça que tinha quase a idade da minha irmã mais velha, a que é filha do meu pai com a minha mãe, assim como eu. Além dela e do Pedro existem mais três. Dois do primeiro casamento, o Fabrício e a Flávia e uma outra que foi de uma relação rápida que meu pai teve em algum momento. Não sei muito sobre ela, só sei que se chama Andréa.

Quando o Pedro estava para nascer, meus pais se separaram. Confesso que na época esse acontecimento me trouxe um grande alívio. Não suportava mais tanta confusão. O ruim de tudo foi só ter que ver, bem de pertinho, o quanto a minha mãe sofreu com tudo isso e vivenciar as conseqüências de tudo, momento por momento. Foi quando a vida me pediu para crescer. Não sei se fui capaz de atender, mas lembro-me bem de todo esse processo.

Durante muito tempo só conhecia o Pedro por nome. Passaram-se pouco mais de seis anos até o dia em que pude vê-lo pela primeira vez. Nunca vou esquecer esse dia. Aquele pivete de óculos (assim como eu ele tem hipermetropia desde pequenininho), todo falante dizendo:

- Eu queria tanto conhecer minhas irmãs! N’era Pai?!

Durante um bom tempo, até ele aprender a dizer os nossos nomes, ele nos chamava de "irmã". Muito engraçado, até a minha mãe ele chamava de "irmã".

Naquele dia, na primeira visita, me apaixonei por ele. Meigo, inteligente e sincero. Falando pelos cotovelos (me identifiquei muito com ele) e dizendo que tinha gostado muito da nossa casa - quero morar aqui com vocês - ele dizia.

Depois desse dia passou-se mais de um ano e meio, aproximadamente, para poder revê-lo. Nesse intervalo nos falamos umas duas ou três vezes por telefone.

Na segunda visita o Pedro já tinha oito anos! Estava maior, mas continuava meigo, inteligente e sincero. Ainda dizia que gostava muito da gente e lembrava direitinho dos nossos nomes. Contou-nos sobre a escola onde ele estudava e do lugar onde ele morava. Foi então que percebi o quanto o Pedro era uma pessoa sensível e pura.

Só para contextualizar: quando os meus pais se separaram, meu pai sumiu. Simplesmente foi embora e eles não se divorciaram, porque na época minha mãe adoeceu e acabamos quase perdendo o contato com ele. Com o tempo fomos tendo notícias de que ele tinha saído do trabalho, estava morando numa favela, próximo ao Antonio Bezerra, e que vivia uma situação econômica bem complicada. Nós, minha mãe, minha irmã e eu, passamos a morar na casa do meu avô e da minha avó (maternos), pois, tivemos que alugar a nossa casa para ter uma renda mensal. Nessa época a minha mãe não trabalhava e com a doença dela minha irmã teve que trabalhar e logo em seguida eu também tive que fazer o mesmo.

Voltando ao Pedro, novamente...

O Pedro dizia que não gostava da Escola onde estudava. E dizia que não tinha muitos amigos onde morava, porque passava o tempo todo dentro de casa (meu pai tinha muito medo que o Pedro se envolvesse com os outros meninos da rua, porque não queria que ele virasse um "marginal", ele dizia isso).

Depois do segundo encontro, houve apenas um terceiro. Que foi bem rápido. Meu pai passou em um dia de Natal com ele na casa dos meus avós. Não pude conversar direito com o Pedro, mas lembro que ele me deu um abraço e um beijo no rosto que até hoje, quando lembro, posso sentir. Depois disso mais uma vez meu pai sumiu. Apareceu algumas vezes. Minha mãe formalizou o divórcio. Mas ele nunca mais trouxe o Pedro para nos visitar. Também nunca fomos a casa deles. Nunca nos foi atrativo, tampouco fomos convidadas.

Sei que meu pai cuida do Pedro como pode. Sei também que comigo e a Edineuda ele sempre deu muita atenção e cuidado, do jeito dele. Mas fico imaginando quando será o dia (ou se esse dia chegará – tenho quase certeza que sim) em que o Pedro vai sentir essa mesma sensação que sinto quando falo ou lembro do meu pai. Essa sensação de não-lugar. Esse distanciamento quase visceral. Essa não pertença que chega a ser tão intensa, ou mais, do que o laço de paternidade que de fato temos.

Sinto muita saudade do Pedro. Lembro dele todos os dias. E estou pensando seriamente em lhe fazer uma visita. Será que ele me recebe?

O Insustentável Preconceito do Ser


Segunda-feira de manhã é um bom momento para ver os milhões de e-mails das listas de contatos. E vez por outra, dentre muitas inutilidades e questões mais práticas de cada lista de e-mails, chega um texto interessante que me faz parar para ler e ter um bom motivo para ao menos abrir a maioria desses incansáveis e-mails que chegam sempre.

O texto abaixo é de uma conhecida jornalista, a Rosana Jatobá, e fala sobre a questão do preconceito multifacetado e que está no cotidiano da sociedade brasileira. Posto ele aqui porque recentemente pude ver o quanto o preconceito ainda é algo presente no nosso cotidiano.

Semana passada recebi um e-mail que falava sobre um manifesto sob o título de "Manifesto São Paulo para os Paulistas". Dei uma olhadinha no blog deles e o que vi: tamanha precipitação. Pensei que era alguma piada ou sei lá... uma brincadeira de mau gosto. Afinal, tenho alguns amigos e parentes em São Paulo, paulistas e nordestinos, e nunca imaginei que esse tipo de iniciativa ganhasse o corpo que ganhou.

Sem mais, vamos ao texto do qual falei. Esse tá merecendo mais a nossa atenção e respaldo.

O Insustentável Preconceito do Ser

Por Rosana Jatobá*

Era o admirável mundo novo! Recém-chegada de Salvador, vinha a convite de uma emissora de TV, para a qual já trabalhava como repórter. Solícitos, os colegas da redação paulistana se empenhavam em promover e indicar os melhores programas de lazer e cultura, onde eu abastecia a alma de prazer e o intelecto de novos conhecimentos.

Era o admirável mundo civilizado! Mentes abertas com alto nível de educação formal. No entanto, logo percebi o ruído no discurso:

- Recomendo um passeio pelo nosso "Central Park", disse um repórter. Mas evite ir ao Ibirapuera nos domingos, porque é uma baianada só!
-Então estarei em casa, repliquei ironicamente.
-Ai, desculpa, não quis te ofender. É força de expressão. Tô falando de um tipo de gente.
-A gente que ajudou a construir as ruas e pontes, e a levantar os prédios da capital paulista?
-Sim, quer dizer, não! Me refiro às pessoas mal-educadas, que falam alto e fazem "farofa" no parque.
-Desculpe, mas outro dia vi um paulistano que, silenciosamente, abriu a janela do carro e atirou uma caixa de sapatos.
-Não me leve a mal, não tenho preconceitos contra os baianos. Aliás, adoro a sua terra, seu jeito de falar....

De fato, percebo que não existe a intenção de magoar. São palavras ou expressões que , de tão arraigadas, passam despercebidas, mas carregam o flagelo do preconceito. Preconceito velado, o que é pior, porque não mostra a cara, não se assume como tal. Difícil combater um inimigo disfarçado.

Descobri que no Rio de Janeiro, a pecha recai sobre os "Paraíba", que, aliás, podem ser qualquer nordestino. Com ou sem a "Cabeça chata", outra denominação usada no Sudeste para quem nasce no Nordeste.

Na Bahia, a herança escravocrata até hoje reproduz gestos e palavras que segregam. Já testemunhei pessoas esfregando o dedo indicador no braço, para se referir a um negro, como se a cor do sujeito explicasse uma atitude censurável.

Numa das conversas que tive com a jornalista Miriam Leitão, ela comentava:

-O Brasil gosta de se imaginar como uma democracia racial, mas isso é uma ilusão. Nós temos uma marcha de carnaval, feita há 40 anos, cantada até hoje. E ela é terrível. Os brancos nunca pensam no que estão cantando. A letra diz o seguinte:

"O teu cabelo não nega, mulata
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega, mulata
Mulata, quero o teu amor".

"É ofensivo", diz Miriam. Como a cor de alguém poderia contaminar, como se fosse doença? E as pessoas nunca percebem.

A expressão "pé na cozinha", para designar a ascendência africana, é a mais comum de todas, e também dita sem o menor constragimento. É o retorno à mentalidade escravocrata, reproduzindo as mazelas da senzala.

O cronista Rubem Alves publicou esta semana na Folha de São Paulo um artigo no qual ressalta:

"Palavras não são inocentes, elas são armas que os poderosos usam para ferir e dominar os fracos. Os brancos norte-americanos inventaram a palavra 'niger' para humilhar os negros. Criaram uma brincadeira que tinha um versinho assim:

'Eeny, meeny, miny, moe, catch a niger by the toe'...que quer dizer, agarre um crioulo pelo dedão do pé (aqui no Brasil, quando se quer diminuir um negro, usa-se a palavra crioulo). Em denúncia a esse uso ofensivo da palavra , os negros cunharam o slogan 'black is beautiful'. Daí surgiu a linguagem politicamente correta. A regra fundamental dessa linguagem é nunca usar uma palavra que humilhe, discrimine ou zombe de alguém".

Será que na era Obama vão inventar "Pé na Presidência", para se referir aos negros e mulatos americanos de hoje?

A origem social é outro fator que gera comentários tidos como "inofensivos" , mas cruéis. A Nação que deveria se orgulhar de sua mobilidade social, é a mesma que o picha o próprio Presidente de torneiro mecânico, semi-analfabeto. Com relação aos empregados domésticos, já cheguei a ouvir:

- A minha "criadagem" não entra pelo elevador social !

E a complacência com relação aos chamamentos, insultos, por vezes humilhantes, dirigidos aos homossexuais ? Os termos bicha, bichona, frutinha, biba, "viado", maricona, boiola e uma infinidade de apelidos, despertam risadas. Quem se importa com o potencial ofensivo?

Mulher é rainha no dia oito de março. Quando se atreve a encarar o trânsito, e desagrada o código masculino, ouve frequentemente:

- Só podia ser mulher! Ei, dona Maria, seu lugar é no tanque!

Dependendo do tom do cabelo, demonstrações de desinformação ou falta de inteligência, são imediatamente imputadas a um certo tipo feminino:

-Só podia ser loira!
Se a forma de administrar o próprio dinheiro é poupar muito e gastar pouco:
- Só podia ser judeu!

A mesma superficialidade em abordar as características de um povo se aplica aos árabes. Aqui, todos eles viram turcos. Quem acumula quilos extras é motivo de chacota do tipo: rolha de poço, polpeta, almôndega, baleia ... Gosto muito do provérbio bíblico, legado do Cristianismo: "O mal não é o que entra, mas o que sai da boca do homem".

Invoco também a doutrina da Física Quântica, que confere às palavras o poder de ratificar ou transformar a realidade. São partículas de energia tecendo as teias do comportamento humano.

A liberdade de escolha e a tolerância das diferenças resumem o Princípio da Igualdade, sem o qual nenhuma sociedade pode ser Sustentável.

O preconceito nas entrelinhas é perigoso, porque , em doses homeopáticas, reforça os estigmas e aprofunda os abismos entre os cidadãos. Revela a ignorância e alimenta o monstro da maldade. Até que um dia um trabalhador perde o emprego, se torna um alcóolatra, passa a viver nas ruas e amanhece carbonizado:

-Só podia ser mendigo!

No outro dia, o motim toma conta da prisão, a polícia invade, mata 111 detentos, e nem a canção do Caetano Veloso é capaz de comover:

-Só podia ser bandido!

Somos nós os responsáveis pela construção do ideal de civilidade aqui em São Paulo, no Rio, na Bahia, em qualquer lugar do mundo. É a consciência do valor de cada pessoa que eleva a raça humana e aflora o que temos de melhor para dizer uns aos outros.

PS: Fui ao Ibirapuera num domingo e encontrei vários conterrâneos. ..

- - -

* Rosana Jatobá, nascida em Campo Formoso, na Bahia, é jornalista, graduada em Direito e Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da Universidade de São Paulo. Também apresenta a Previsão do Tempo no Jornal Nacional, da Rede Globo. Esse texto é parte da série de crônicas sobre Sustentabilidade publicada na CBN.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Parada Gay*

Por Alex Castro.

2002. Eu ainda casado. Plena Copa do Mundo. Jogo da seleção e churrasco com um grupo dos meus amigos de infância. Depois da comilança, eu e a ex nos levantamos e anunciamos estar indo pra praia de Copa ver a parada gay. Alguém quer ir junto?

Oh, o horror, o horror! Pela reação, parecia que tínhamos dito: vamos até o depósito de lixo comer merda, vocês acompanham? Pra começar, não acreditaram: Ah, não, fala sério. Não pode ser. O Alex fala essas coisas só pra chamar atenção.

Ficamos tão surpresos com aquela reação que praticamente só o que pudemos fazer foi confirmar que sim, íamos sim, qual era o problema?

Alguns simplesmente nunca acreditaram. Para eles, ir a uma parada gay era algo terrível demais para conceber alguém fazendo por livre e espontânea vontade. Outros começaram a questionar minha masculinidade. E poucos, os que perceberam que era verdade, ficaram perguntando: por quê?! por quê?!, como se quisessem entender, meu deus, o que poderia levar alguém a ir até o depósito de lixo comer merda.

Não há problema algum em não ir à Parada Gay, claro. Eu nunca teria ido se não fosse a ex querer ir e, se ninguém mais me levar, provavelmente nunca irei de novo. Não sou muito de festa. O que me chocou foi a reação.

Eu e a ex sabíamos que aquele povo era careta. Nunca tínhamos falado do nosso casamento aberto nem das experimentações sexuais que fizéramos. Afinal, pra que chacoalhar demais suas cabecinhas? Ainda assim, foi um choque perceber que até mesmo um programa vovó como ir a uma parada e ficar em pé na calçada vendo os carros passarem (sem precisar fazer nada!) era demais para os seus preconceitos. Como iriam reagir se soubessem um décimo de quem éramos e do que fazíamos? Eu sabia que vivíamos em mundos diferentes, mas não imaginava que eram tão distantes.

Por um lado, eu saí de lá feliz, sabendo que estava casado com uma mulher que pensava como eu, que era do mesmo mundo que eu.

E, por outro, fiquei um pouco triste. Sim, eram meus amigos de infância, meus amigos mais antigos, eu os amava e sabia que me amavam também.

Mas nunca me aceitariam.

* * *

*Essa crônica faz parte do livro Liberal Libertário Libertino, do Alex Castro. Foi copiado do blog: http://www.interney.net/blogs/lll.

domingo, 7 de março de 2010

Para senador, os negros são os culpados pela escravidão no Brasil

Fonte: http://blogdosakamoto.uol.com.br - 04/03/2010 - 13:05 498 Comentários

Ontem, durante audiência no Supremo Tribunal Federal para discutir o sistema de cotas em universidades públicas, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) usou da palavra para destilar todo o seu profundo conhecimento sobre a história do Brasil. Quem ouviu seu discurso saiu com a impressão de que aprendeu várias coisas novas. Que os africanos eram os principais responsáveis pelo tráfico transatlântico de escravos. Que escravas negras não foram violentadas pelos patrões brancos, afinal de contas “isso se deu de forma muito mais consensual” e “levou o Brasil a ter hoje essa magnífica configuração social” de hoje. Que no dia seguinte à sua libertação, os escravos “eram cidadão como outro qualquer, com todos os direitos políticos e o mesmo grau de elegibilidade” – mesmo sem nenhuma política de inserção aplicada. Com tudo isso, o nobre senador deu a entender que os negros foram os reais culpados pela escravidão no Brasil. As frases (da qual retirei trechos que estão entre aspas) foram registradas pelos jornalistas Laura Capriglione e Lucas Ferraz, da Folha de S. Paulo.

A posição do senador é compreensível, se considerarmos que o discurso feito não foi um ataque à reserva de vagas para negros e afrodescendentes e sim uma defesa da elite política e econômica que controlou a escravidão no país e que, com algumas mudanças e adaptações, desembocou em setores do seu próprio partido.

Depois me perguntam por que a proposta que confisca terras de quem usou trabalho escravo está engavetada no Congresso Nacional…

Um comentário sobre o direito dos libertados exposto pelo senador: Em meados do século 19, com o fim do tráfico transatlântico de escravos, a propriedade legal sob seres humanos estava com os dias contados. Em questão de anos, centenas de milhares de pessoas estariam livres para ocupar terras virgens – que o país tinha de sobra – e produzir para si próprios em um sistema possivelmente de campesinato. Quem trabalharia para as fazendas? Como garantir mão-de-obra após a abolição?

Vislumbrando que, mantida a estrutura fundiária do país, o final da escravidão poderia representar um colapso dos grandes produtores rurais, o governo brasileiro criou meios para garantir que poucos mantivessem acesso aos meios de produção. A Lei de Terras foi aprovada poucas semanas após a extinção do tráfico de escravos, em 1850, e criou mecanismos para a regularização fundiária. As terras devolutas passaram para as mãos do Estado, que passaria a vendê-las e não doá-las como era feito até então.

O custo da terra começou a existir, mas não era significativo para os então fazendeiros, que dispunham de recursos para a ampliação de seus domínios. Porém, era o suficiente para deixar ex-escravos e pobres de fora do processo legal. Ou seja, mantinha a força de trabalho à disposição do serviço de quem tinha dinheiro e poder.

Com o trabalho cativo, a terra poderia estar à disposição para livre ocupação. Porém, com o trabalho livre, o acesso à terra precisava ser restringido. A existência de terras livres garante produtores independentes e dificulta a centralização do capital e da produção baseada na exploração do trabalho. Com o fim do tráfico e o livre mercado de trabalho despontando no horizonte, o governo brasileiro foi obrigado a tomar medidas para impedir o acesso à terra, mantendo a mão-de-obra reprimida e alijada de seus meios de produção.

O fim da escravidão não representou a melhoria na qualidade de vida de muitos trabalhadores, uma vez que o desenvolvimento de um número considerável de empreendimentos continuou a se alimentar de formas de exploração semelhantes ao período da escravidão como forma de possibilitar uma margem de lucro maior ao empreendimento ou mesmo lhe dar competitividade para a concorrência no mercado. Desde 1995, mais de 36 mil escravos contemporâneos foram libertados pelo governo de fazendas de gado, soja, cana…

Para além dos efeitos da Lei Áurea, que completa 122 anos em maio, trabalhadores rurais ainda vivem sob a ameaça do cativeiro. Mudaram-se os rótulos, ficaram as garrafas.

Mas, principalmente, o Brasil não foi capaz de garantir que os libertos fossem tratados com o respeito que seres humanos e cidadãos mereciam, no campo ou na cidade. Herança maldita presente na sociedade. E alimentada por discursos como o de Demóstenes Torres.

PS: Posto o discurso do senador (a partir do minuto 33) a pedido de leitores. O que me lembra que um político é capaz de falar qualquer coisa de uma forma bonita…

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A Questão do Haití e a Paz Perpétua de Kant

Estou trabalhando em um texto na tentativa de fazer um paralelo entre Kant e Rousseau, tendo como pontos principais a questão da Guerra, do estado e da História. Ao me deparar com a situação do Haiti, lendo o tratado kantiano À Paz Perpétua não tive como não remeter essa triste realidade ás sábias palavras do filósofo alemão.

* * *

O Haiti virou notícia. Não, não houve plena emancipação social e política daquele país... Não encontraram a solução para o seu título mais lembrado: o de país mais pobre do mundo. Não, um haitiano não ganhou o prêmio de melhor artista, intelectual, pacifista ou político do mundo. O Haiti foi ao chão. Ao chão em forma de escombros depois de um terremoto. Morreram haitianos (muitos), brasileiros, americanos, etc. Um país inteiro devastado pela força da natureza e a falta de estrutura mínima do Estado, concretamente falando.

Sabemos que o Haiti é um país conhecido por ser o mais pobre do mundo. Sabemos também que o povo haitiano vem sofrendo há anos com a situação política e social de seu país. Existe um estado de segregação no Haiti há bastante tempo, onde, esse povo tão guerreiro, que historicamente se libertou das correntes que os privavam de liberdade, nos últimos anos viu-se submetido á militarização e a governos que não atendem ás necessidades reais estruturais, em todos os sentidos, do território haitiano.

Muito se ouviu falar sobre o ocorrido com o Haiti na última semana. E muitas foram as causas apontadas para o ocorrido: a fúria da natureza como resultado da ação humana contra ela; a falta de estrutura, que fez com que as conseqüências do terremoto fossem mais desastrosas, etc. Vários podem ser os motivos que levaram ao que estamos assistindo todos os dias na televisão, lendo nos jornais, ouvindo nos rádios, nas ruas... Enfim. Podemos dizer que todos os motivos são válidos, no entanto, existe algo nas entrelinhas do ocorrido que também precisa ser ressaltado, e é justamente neste ponto que recorro ao legado kantiano em À Paz Perpétua, no Suplemento Primeiro sobre a garantia da paz perpétua:

"O que subministra esta garantia é tão-só a grande artista, a Natureza (natura daedala rerum), de cujo curso mecânico transparece com evidência uma finalidade: através da discórdia dos homens, fazer surgir a harmonia, mesmo contra a sua vontade. Chama-se, por isso, também destino, enquanto compulsão de uma causa necessária dos efeitos segundo leis que nos são desconhecidas, e Providência" (p. 23)*


Para Kant em termos de História Universal o homem é o fim último da natureza. Tudo o que acontece tem uma determinação, e esta é fruto da livre vontade intrínseca a natureza humana. Para ele os homens são, por natureza, maus, porém, eles mesmos desejam ser bons, mesmo que seja para viver comodamente. Então, transitando nessa ambigüidade presente em cada individuo, a humanidade caminha para a Paz Perpétua, e mesmo as guerras estão a serviço dela.

O que vemos no Haiti é justamente essa ambigüidade. O caos da violência e da miséria em convívio com a solidariedade e a compaixão. É um retrato pleno do que Kant expõe em sua obra. Sendo assim, a luz do pensador de Königsberg, espero que a História da Humanidade, Universal e cosmopolita aprenda com o Haiti e pelos “haitis”, e que ao superarmos essa fenda que acomete o mundo possamos olhar com maior admiração para a história desse povo em especifico e possamos respeitá-los, não em função do desastre ocorrido, mas por sermos também co-participes dos haitianos enquanto espécie.

Somos o Haiti! "O Haití, é aqui"...



* A edição consultada para a citação encontra-se on-line no endereço: http://www.lusosofia.net/textos/kant_immanuel_paz_perpetua.pdf.

Ediane Soares