sábado, 26 de julho de 2008

=> Ausência filosófica

;;;

Não faz barulho.
Não há silêncio absoluto.
Não há nada de extraordinário no clima.
As horas passam normalmente, com a mesma velocidade de sempre.
Não há nada de novo além do próprio dia, simplesmente porque ele sempre renasce sem ser convidado, acreditado ou merecido.

Para toda presença uma ausência. Agora aqui, agora ausente lá. Sou uma presença ausente o tempo todo. Esse teclado sobre essa mesa está agora presente aqui, mas está ausente da superfície da mesa da cozinha.

Assim é também com a minha porção metafísica. De maneira mais complexa até. Pois ás vezes se faz presente no momento de minha consciência ao mesmo tempo em que está ausente de outros espaços cósmicos. Outras vezes, ocupa espaços desconhecidos por mim e o que me resta é a sua ausência. É essa ausência filosófica que me leva a crer que a vida é retalhada pelas substancias que não conseguimos alcançar, nem com a mais precisa concentração, nem com a menor partícula de fenômeno existente.

A vida é a ausência do que ela é.
A filosofia é a ausência de si mesma.
Somos a nossa própria ausência enquanto existentes nesse mundo.

Essa dança filosófica também se estende pelo que poderia ser ou poderia ter sido. É de onde emerge toda a metafísica que a nossa capacidade de projetar impulsiona-nos para viver. É vontade inata de todo ser existente, vivo ou não, de ser o que é e o que não é ao mesmo tempo. Sem intervalo, sem brechas, com ou sem razão.

É na ausência de amor que o amor projeta a eternidade.



Ediane Soares

quinta-feira, 24 de julho de 2008

=> Casca

Numa rica conversa de msn...

"É porque não gosto de todo mundo que eu conheço ficar lambendo os pés da bailarina (...) e ela se veste mal pra caramba!" e etc.

(By: Wesley Alves)


Wesley, meu caro poeta!

A moralidade vigente, aquela que nos impede de sermos nós mesmos... desde Platão, passando por Kant, Spinoza e o escambal à quatro... "preza" pela mentira, dissimulação, fingimento, fraude.

"ela dá, mas num dá.
nega, mas não larga.
foge, mas aparece.
mente, mas chora.
bate, e gosta de sofrer.
Ou seja: a personificação da fraude!
- O ser humano perfeito para compor a alteridade moral da decadência humana!"

Depois disso, meu querido, você me pede para ficar com Deus!
Se for o caso de escolher, prefiro a casca vazia (já que não preciso dela) aos fragmentos de qualquer questão necessária, [Deus?].

Abraço carinhoso...


Ediane Soares

sábado, 19 de julho de 2008

Neruda

Existem poetas. Existem os essencialmente poéticos. Existem os poetas bons. E por fim existem os da laia de Pablo Neruda.

Não consigo conter minha admiração e empolgação com a obra desse 'gênio' da arte poética, esse pensador livre, esse ser humano grandioso. E como dizia o Filosofo bigodudo*: 'Humano, demasiadamente humano'. É isso que sinto quando leio uma frase, um fragmento que seja do Neruda; é assim que eu saboreio a poesia.

É assim...
Sentir por sentir é comum. O melhor é sentir lendo O Poeta!
A sutileza traduzida na mais inteligente e sensível poesia.


Por Ele...

"Posso escrever os versos mais tristes essa noite"

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.




*F. Nietzsche (filósofo bigodudo)

terça-feira, 15 de julho de 2008

O nó na garganta

Teoricamente hoje nasceu o mesmo sol que ontem se pôs. Algumas nuvens do céu estão mais deformadas que outras. Faz calor. Venta.

O menino do sinal não apareceu hoje. Parecia bem cansado ontem à noite. Tinha uma senhora bem idosa no lugar dele. O mesmo sol que ontem se pôs, nasceu também na rua hoje?

Nasceu. E nasceu bravamente. Nasceu como nasce o primeiro filho do ano de um casal que já tem mais de seis. Nasceu como nasce o Rio Cocó. Nasceu como nasce a saudade por alguém que nunca esteve aqui.

É confuso saber que um nó na garganta, como esse que me atormenta e cala, é capaz de sensibilizar ao mesmo tempo todos os gritos contidos, os de alegria e os de dor.

E é sublime testemunhar a obscuridade da vida sendo clareada pela re-vida presente apenas na alteridade que a gente não pode escolher.

Existem milhões de pessoas nuas. E outras tantas se desnudando ainda. E muitas outras mais sufocadas, revestidas pela falta de tento e de nós na garganta ou na alma.


Ediane Soares
.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Perecível

"Nós, os perecíveis, tocamos metais,
vento, margens do oceano, pedras,
sabendo que continuarão, imóveis ou ardentes,
e eu fui descobrindo, nomeando todas as coisas:
foi meu destino amar e despedir-me."

[Pablo Neruda]


Amar e despedir-me...
E amar a despedir-me...
Amar
Despedir-me...


Perecível Neruda
Perecível amor...
Perecível vaidade
Perecível saudade.
E mesmo assim
Como a fumaça desse teu cigarro
Seguiremos...
Aos tolerantes agrados
Aos transcendentes estragos...

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Cegueira

.Passo
Passas
Passos
...

E quando vê
Já é domingo
.
E quando vê
É fevereiro
.
E quando vê
Não tem mais tempo
.
E quando vê
Não tem mais olhos.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Natureza e Criação

.
Natureza e Criação: resgate do "Paraíso" em plena crise ambiental.


Somos água. Somos tempo. Somos átomo.
Somos a terra. Somos os povos. Somos a vida.
Somos a dívida para com o futuro.
Somos o futuro que já nasceu endividado.

Por Ediane Soares

Segundo alguns pensadores antigos, como Aristóteles, a vida é um todo hierarquizado, onde a natureza é o conjunto dos fragmentos que a compõe. Nessa visão hierárquica da natureza, estaria o ser humano na escala mais próxima ao absoluto (motor imóvel ou causa primeira, para o Filósofo) por ser dotado de racionalidade. É certo que essa visão já foi ha muito ultrapassada. Não só porque carece de fundamentos consistentes, mas porque os fatos nos fazem perceber que se trata de algo bem mais complexo.

Durante muito tempo a visão que se foi difundindo da relação natureza-homem era de subserviência dos recursos naturais para o desfrute dos 'seres racionais'. Essa práxis¹ gerou uma relação de violência que acarretou no que chamamos hoje de 'crise ambiental'.

A 'necessidade metafísica'², atribuída aos seres humanos, pode ser o ponto de partida para uma visão cosmológica da natureza. Essa necessidade expressa-se historicamente de várias formas, uma delas, e diria até, uma das mais significativas delas é a religiosidade ou espiritualidade. Essa capacidade de projetar, idealizar, pensar em algo além-vida, marca profundamente a subjetividade das pessoas, logo também o trato com a natureza.

Algumas religiões, especificamente as cristãs, têm como ponto de partida para a sua teologia o Gênesis, que é a narrativa bíblica da criação do mundo. Essa narrativa coloca o homem como sendo parte da criação, porém, sendo responsável por cultivar e guardar o que foi criado por Deus. Pela lógica, naturalmente, seria esse o grande papel dado por Deus aos seres humanos: compartilhar a vida com a natureza.

"Javé Deus tomou o homem
e o colocou no jardim do Éden,
para que o cultivasse e guardasse"
(Gn 2, 15)

O momento em que estamos situados é marcado pelo avanço das tecnologias, onde a máquina toma cada vez mais espaços e a relação entre as pessoas se torna cada vez mais superficial. Além disso, marcados pelo consumismo exacerbado, aspecto singular do sistema capitalista, as pessoas estão cada vez mais egocêntricas e individualistas.

As religiões nesse contexto adquirem um papel meramente de "fármaco"³ para as angústias e frustrações pessoais, raramente assumindo o papel de formadora de seres humanos conscientes. Sendo assim urge que as religiões, filhas da idéia ‘criacionista’ do mundo, que se auto-denominam representantes de Deus na terra resgatem esse cuidado, esse papel que nos foi atribuído.

A idéia de vida eterna, de paraíso após a morte que tanto é difundida pelas religiões cristãs, que é assimilada pelos crentes dessas religiões pela necessidade que têm de projetar algo além da vida, poderia fomentar o resgate do paraíso primeiro, aquele do Gênesis, que perdemos de vista depois de tanto olhar para o desconhecido que projetamos na pós-morte.

Esse ‘paraíso’ tão sonhado pela cristandade é a própria Terra que hoje clama pela vida. É a terra das desigualdades sociais, do consumismo inconsciente, de tantas guerras, de tantos pré-conceitos.

Não podemos recriar o ‘paraíso’, mas podemos transformar a realidade com a qual nos deparamos atualmente, seja enquanto indivíduos, como coletivos pelo meio ambiente, ou como parte integrante do meio natural. O que não podemos é tentar viver em função do que está para além da nossa realidade atual desconsiderando que a transcendência que nos garante maior aprendizado é aquela que se faz para transformar ou garantir o que nos é iminente, o que nos já é dado cotidianamente.

Que a nossa necessidade metafísica garanta as nossas utopias, mas que não nos faça fechar os olhos para a vida e para a realidade que nos rodeia e envolve.





¹ Relação entre teoria e prática.
² Ver: SCHOPENHAUER, Arthur. A Necessidade Metafísica, Ed. Itatiaia, Belo Horizonte - MG, Brasil. 1960.
"Por Metafísica entendo toda pretensão a conhecimento que busque ultrapassar o campo da experiência possível..." (Schopenhauer)
³ Do grego phármakon quer dizer veneno ou remédio, de acordo com a dosagem pode ser um ou outro.

.

sábado, 5 de julho de 2008

Projeção

.
se não vivemos

vegetamos.


e não visemos

nos vejamos.


Ediane Soares

...